Da arte de empobrecer

Em meados do século XX, o papa João XXIII afirmou, numa conversa, haver três formas garantidas de levar um homem à pobreza: o jogo, as mulheres e a agricultura. De jogo e mulheres, falta-me a vivência para dar pitacos. Da agricultura, o Santo Padre estava coberto de razão.

Agricultura é atividade que fascina e apaixona, mas cobra preço muito alto de quem a pratica. Pune, cruelmente, os que ousam, século após século, produzir alimentos, bebidas e vestuário para a humanidade. São ignorados, desprezados e humilhados, como símbolo de atraso, por uma população bem comida, bem bebida e bem vestida.

Extremamente dependentes do clima, conseguem administrá-lo com notável competência. Não vêm daí os maiores perrengues. A porca torce o rabo quando o preço do que compram e do que vendem é determinado pelos outros, sem a menor consideração do seu trabalho e gastos. 

Conhecimento, habilidades, técnica, disposição, inovação, até mesmo o tal de empreendedorismo, que enche a boca da senhora deputada, não são suficientes para blindá-lo das armadilhas do setor. Já vi colega ter que vender uma mercedinha pra se safar do resultado de uma horta, conduzida com esmero dentro da técnica recomendada pelo agrônomo da indústria de insumos. Na Ceasa, se pagava 5 reais a caixa, que custava 15.

Cê não encontra nenhum gerente, diretor ou dono de banco que tenha perdido o sono ou algum centavo por atrasar a liberação de um financiamento agrícola. Já agricultor que perdeu tudo pro banco, inclusive a própria terra, não é novidade. Terra que fica estocada e improdutiva, só para especulação. Enquanto muitos não têm um palmo para trabalhar. Aliás, pra banqueiro não tem tempo ruim. Desemprego, fome, quebra de empresas eles traçam numa boa, auferindo bons ganhos.

Mas, como o pogréçio não descobriu outra forma viável de alimentar a população, a agricultura se mantém como maneira segura de empobrecer alegremente.

A arte de colher o sol

A agricultura está presente em minha vida desde o berço, descendente que sou de uma família que construiu incrível experiência no campo. No último quarto de século decidi voltar para a roça e tirar dali meu sustento. Decisão controversa, já que é usual associar agricultura com atraso de vida ou vida atrasada.

Quase ninguém se dá conta que comer num restaurante gourmet, beber um bom vinho ou vestir um jeans de marca é garantido pela labuta árdua e diária do agricultor, espalhado por este mundo de meu Deus.  Sem esquecer as refeições triviais do cotidiano, a cerveja, o uísque, a cachaça e o paletó de linho branco ou o vestido de seda.

O homo sapiens não nasceu agricultor. Se fez agricultor quando milhares de anos de evolução e aprendizado lhe permitiram as condições para um passo importante e fundamental na sua história. Assim, aquele agricultor que você olha do alto, como tosco e ignorante, possui conhecimento de dar quinau em muito graduado. A agricultura é responsável por incríveis avanços, mas também por mazelas, como o egoísmo, o latifúndio e a funesta Ciência Econômica, origem do culto de adoração ao bezerro de ouro. Custa ver alguma racionalidade quando milhões de pessoas morrem de fome, sendo a produção agrícola suficiente para alimentar mais que toda a população do planeta.

Carece de fundamento também a ideia que a vida no campo é um paraíso de paz e tranquilidade. Tem muito trabalho, dificuldade, é pouco valorizada e possui muitos fatores fora de seu controle, como o pagamento que você recebe pelo seu produto. Mas, faça sol ou chuva, frio ou calor, o homem do campo tá lá agarrado na lavoura, mesmo porque, nos últimos dez mil anos não foi encontrada nenhuma outra forma de produzir alimentos para uma crescente população.

Essa conversa rende.