Flagrantes da vida real

Corria o ano de 2010. Agricultores familiares organizavam seu acesso ao mercado da alimentação escolar, aberto pela lei 11.947/2009. Um mercado milionário, feudo de fornecedores confortavelmente estabelecidos desde o seu início, aí por 1955. O artigo 14 bulia com esse sossego e logo surge uma corrente pra evitar que a lei pegasse. (No Brasil tem disso, lei que pega e lei que não pega e tipo bacana que se lixa pra lei). Em muitos lugares, os próprios fornecedores cuidavam de toda a lisura do processo licitatório, aliviando a carga dos gestores escolares e fazendo tudo fluir no devido ordenamento legal.

Por outro lado, os agricultores familiares estavam dispostos a não perder esta oportunidade, consolidando sua presença nas compras governamentais, na esteira do sucesso das vendas para o PAA, inovador programa lançado em 2003, pelo governo federal. Este novo, o PNAE, tinha desafios e exigências específicas que precisavam ser atendidas. Uma barreira era o fornecimento para as capitais e grandes cidades com alta demanda. E havia uma lorota insidiosa, aceita até por alguns órgãos oficiais de assistência técnica: ‘a agricultura familiar não tem condições de atender à alimentação escolar’.

Encurtando o papo, as organizações produtivas da agricultura familiar mostraram-se bem mais preparadas para atender que as escolas para receber seus produtos. O que demonstra a capacidade da categoria, lamentavelmente ignorada pela sociedade. De norte a sul, de leste a oeste, atendendo às peculiaridades de cada lugar, os agricultores familiares mostraram competência, organização e resultados. É gente que tem história.

É, pois, com alegria, que me deparo com a COOPERFAM oferecendo seus produtos para entrega a domicílio, nesta quarentena. Acompanho sua trajetória desde os primeiros passos. Pessoas, produto, comercialização, aprendendo com as políticas públicas de compras o acesso ao mercado. Coragem, ousadia, determinação e muito trabalho, que não é fácil tocar uma cooperativa no Brasil. Crescimento orgânico, superando obstáculos um a um. O nome, Cooperativa Agroecológica da Agricultura Familiar do Caminho de Assis, já expressa a missão, visão, valores, território. Como falei na postagem anterior, fora dos dogmas religiosos de Paulo Guedes uma outra economia é viável. Geradora de riquezas e qualidade de vida para toda a população brasileira. No Brasil inteiro temos exemplos semelhantes. Vamos acreditar e fazer.

PAA – Programa de Aquisição de Alimentos

PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar

Uma luz na escuridão

O brasileiro médio tem profunda ignorância sobre a realidade brasileira e mais crassa ainda sobre a sua história. Por isso, se sente muito confortável ao repetir a narrativa que vê na mídia, mais recentemente no whatsapp, sobre assuntos dos quais não tem o menor conhecimento, como verdade absoluta. A inguinoransa astravanca o pogréçio, dizia um personagem da tv, o que explica reações extremadas contra as ações de sanitaristas como Osvaldo Cruz, há um século atrás e as recomendações da OMS nos dias atuais.

Aliada da ignorância, a preguiça em se informar, embora não lhe falte o acesso, explicam que aceite, bovinamente, a visão oficial deturpada sobre as organizações dos trabalhadores, as associações, os sindicatos e os movimentos sociais, em especial o MST. Recente episódio entre ministro e presidente expõe a mentira da livre negociação patrão e empregado. E a atuação do MST na pandemia, distribuindo toneladas de alimentos, mostra a verdadeira face do movimento.

Encarando um rosário de obstáculos – da abjeta campanha de difamação orquestrada pela mídia à perseguição violenta com assassinatos de seus líderes e membros – o MST vem mostrando, ao longo de sua história, os benefícios de uma verdadeira reforma agrária para o país.  Demanda que vem de longe. Logo após o golpe de 1964, o governo militar elaborou o Estatuto da Terra, Lei 4504/64, disciplinando o assunto. Embora dispondo de todos os instrumentos não teve peito de implementá-lo. Optou por fortalecer o velho modelo de plantation, latifundiário e exportador, através do Sistema Nacional de Crédito Rural. Do esgotamento desse modelo surge o MST. Veja quão atrasados estamos.

Mas o que motiva esta postagem é o papo entre Eduardo Moreira e dirigentes do MST, no último sábado, sobre novo modelo de financiamento para a agricultura familiar. Uma alvissareira notícia no meio de tanta coisa ruim acontecendo. Abra o link acima e confira. Um alento ver que a Economia é mais do que os milhões de trouxas explorados por banqueiros, do repertório do ministro. É um instrumento para que se descubram soluções criativas e inovadoras para superar crises. 1 milhão de reais é pouco dinheiro, verdade. 1 milhão de vezes menos que o trilhão que vive na ponta da língua do ministro. Porém, abre uma estrada para a gente discutir que economia queremos. Longe de dogmas, olhando pra realidade, com o objetivo de melhorar a vida das pessoas. Livre das viseiras, podemos encontrar os meios de realizar sonhos. Uma luz na escuridão.

água pra mim tem cabelo

Era o bordão repetido pela moleca magrela e atrevida para as companheiras mais velhas, preocupadas com sua afoiteza nos banhos de rio e açude, no cotidiano da vida na roça. E foi assim, com determinação, coragem, ousadia e bom humor, que ela traçou seu caminho na vida, fazendo tranças no cabelo da água.

Vida plena de desafio e aventura, acompanhando o marido pelos sertões do Piauí e Ceará, deixando o conforto da família. Para ela, correr riscos era parte do processo de atingir os objetivos definidos. Juízo demais é trambolho, repetia bem humorada. E registra, cuidadosamente, os gastos diários, num peculiar modelo: em linha, com os itens descritos em sequência e o valor anotado acima. Praticava o recomendado, hoje, pelos consultores de finanças, que abundam no séc. XXI. Com certeza, no fim do mês, fazia o fechamento com o marido, escrivão da Coletoria Federal do Ministério da Fazenda e planejava o futuro. Com os olhos na garantia da educação dos filhos perto dela.

Adorava os filhos, embora não gostasse de criança, sempre ressaltando que não eram crianças, eram seus filhos. Três filhos homens, pra desconsolo de Abigail, a tia Biga, que previa futuro solitário pra irmã sem uma filha. Soube lidar com alterações ao seu desenho, ao ver a intenção dos filhos de ingressar no seminário. Católica fervorosa, trocou a privação da presença deles pela perspectiva de ter um filho padre, dádiva divina. Não deu. De novo com os filhos em casa acompanhou-os, carinhosamente, até à idade em que cada um tomou seu caminho.

Nunca falou o manjado ‘vou falar com teu pai pra ele tomar as providências’. Caso necessário ela mesmo as tomava com firmeza, autoridade e respaldo. Nenhum filho, médico, advogado ou engenheiro, tradicionais profissões da época (nem economista, que começava a ter valor). Ela forneceu régua, compasso e valores, mas cada um escolheu seu rumo, sem imposição. Não fugia de dar conselho, não economizava oração, não sonegava amor. Retribuído, pelo visto. Ao fim da festa de 50 anos de casada, manda um recado pela sobrinha: ‘diga à Biga que nunca senti falta de uma filha mulher’. Uma alegria saber disso. Isenção de mãe não conhece limite.

Inesquecível Zuite.

A História e suas fontes

Cartas escritas à mão eram meios de comunicação muito usados até uns 50 anos atrás. Antes, com caneta tinteiro, mais tarde com esferográfica, que eliminou os problemas de borrões. Descubro um monte delas guardadas no armário e vou tentando decifrar a caligrafia, ortografia e sintaxe para saber o que preocupava as pessoas 90 anos atrás.

Encontro esta carta de setembro de 1929, dando conta da emancipação da Vila do Cariré. Uma de um conjunto, em que o autor, filho mais velho da família que permanecera na roça, enquanto os demais iam estudar fora, atualizava o irmão sobre as novidades da terrinha. Vou me ater ao fato principal, o Cariré em dependente.

Um fato: o prestígio da família, cujo pai vai na comissão de notávis, encabeçada pelo chefe político e sua ausência na lista de poziçoes. Talvez tenha a ver com o fato da família ser da Serra e estar mais preocupada com a educação dos filhos e o desenvolvimento de suas atividades econômicas.

Na lista de poziçoes todas as autarquias locais, irmanados no objetivo da independência do município. Anos depois, quando me dou conta do Cariré, já havia uma ferrenha disputa pelo poder entre os Aguiar e os Rodrigues. Nas eleições municipais de 2016, quase 90 anos depois da emancipação, os candidatos rivais eram descendentes destas famílias. Eventos nacionais como a Revolução de 30, a ditadura do Estado Novo, a redemocratização de 1946, o golpe militar de 1964, a Constituição de 1988, com suas normas e inovações, pouco alteraram a situação do lugar.

Como de resto da maioria dos municípios brasileiros. Numa evidente contradição às eleições pra presidente da república quando os eleitores votam em candidatos que apontam para o desejo de um país moderno e desenvolvido. Verdade que estes resultados são sempre contestados furiosamente pela zelite aferrada aos privilégios, condenando o Brasil a ficar mergulhado no atraso.

Fica o registro.

1º de Maio

Celebra-se, nesta data, na maioria dos países do mundo, o Dia do Trabalhador. Uma homenagem mais do que merecida às pessoas que constroem a riqueza das nações. Um dia para lembrar a importância de um personagem, costumeiramente invisível, mas de fundamental importância em nosso bem estar diário.

Ao longo do tempo em que foi instituída a data, as organizações dos trabalhadores ao redor do mundo promovem festas, desfiles e manifestações, reivindicando condições de vida à altura de sua importância para a sociedade. Foge a qualquer noção básica de justiça ver que a riqueza gerada pelo trabalhador de nada lhe serve, tendo de se contentar com o mínimo para sua subsistência.

A zelite do Brasil devota profunda ojeriza ao trabalho e ao trabalhador desde que Cabral aportou por estas terras. Significativo, o profundo ódio do imperador D. Pedro II ao Barão de Mauá por ter sido obrigado a lançar a primeira pazada de massa na pedra fundamental da ferrovia Rio – Petrópolis. Não lhe comoveu o fato de ser uma pá de prata, com cabo de jacarandá, cravejado de brilhantes. Recentes passeatas dos herdeiros dessa gente mostram que não evoluímos nada.

Mas fiquemos com o essencial. Hoje é o Dia do Trabalhador. Do homem, da mulher que emprestam sua força e talento para construir riquezas, mesmo que delas não desfrutem. E que constituem a maioria dos habitantes do Planeta. A eles e elas nossa homenagem solidária.