Pé na estrada

Vem do berço o hábito de viajar. Natural, portanto, que Rosa e eu tenhamos colocado os pimpolhos na estrada tão logo surgiram as oportunidades. Talvez uma inconsciente volta à feliz infância. Certo é que de carro, ônibus, avião, muitos lugares foram visitados, muitas experiências vividas.

Praias, montanhas, cacheiras, grutas, o destino quase sempre determinado pela oportunidade. E aproveitado ao máximo, dentro das características de cada um. Mesmo alguns programas de índio acabaram por deixar boas lembranças.

Maquiné, Caraça, Serra do Cipó, Iguape, Canoa Quebrada e tantos outros lugares chegando até o Cariré, Ubajara e Piracuruca. Longas viagens de ônibus, rodoviárias deploráveis, hotéis cujas estrelas eram as vistas pelos furos do telhado sem forro. Algumas vezes com a companhia de sobrinhos ou cunhadas.

Ainda hoje, quando a ocasião se apresenta, curtimos viajar juntos. Não importa para onde. Até mesmo a cidade onde vivemos oferece infinitas possibilidades. O importante é a descoberta, a aventura, o prazer.

Acredito que o vírus de viajar foi inoculado na garotada. Cada um a seu jeito curte a paixão. João, com roteiros que vão da Nova Zelândia a Bratislava passando pela Islândia. Maria, descobrindo a alma e desconhecidos lugares de Belzonte, Bath, Paris, Berlim, Sampa ou Fortaleza. Pedro, sempre o mais trilheiro, une o ciclismo com as viagens, palmilhando cada canto do litoral cearense, com a sua MARPEDAL. E, graças à tecnologia de informação e redes sociais, continuamos a viajar juntos.

(Fotos do aplicativo de rejuvenescimento, também conhecido como álbum de família e dos citados no post.)

Nosso mundo, nosso lar

A Natureza foi generosa com Ubajara, criando aqui um idílico Jardim do Éden, que habita a cabeça de todo cristão. O Parque contribui para sua conservação e funciona como um chamariz para os visitantes, que fazem da cidade o ponto de partida para conhecer as belezas da Ibiapaba.

Já os habitantes não retribuem tanta generosidade. Fora dos limites do parque, as nascentes e cursos d’água que alimentam suas cachoeiras e os rios que correm para o poente, em direção ao Piauí, se encontram em avançado estado de degradação. O mesmo descuido se observa no trato da cidade, seja pelos moradores, seja pelas autoridades.

De resto, coerente com o egoísmo do ser humano, incapaz de se ver como integrante de uma cadeia ecológica, crente que a vida gira em torno do próprio umbigo. Verdade que alguns empresários começam a entender que as belezas naturais podem ser fonte de lucro e se preocupam com empreendimentos minimamente sustentáveis. Menos mal, mas muito já perdemos.

Seguindo os rios que já não serpeiam tão cantantes encontramos a Cachoeira do Boi Morto, muito frequentada aos domingos e palco do encerramento do carnaval ibiapabano, na quarta feira de Cinzas. Mais à frente, o açude Jaburu, com alguns balneários, de onde os mais dispostos podem enfrentar árdua trilha até a belíssima Cachoeira do Frade, simplesmente indescritível, e ainda preservada pela dificuldade de acesso, mas ameaçada pela falta de um plano de exploração.

Conhecer uma produção industrial de rosas oferece um contraponto à natureza, sem deixar de lado a beleza. Acompanhar todo o processo produtivo e entender porque o clima da região atrai este tipo de investidor é uma boa forma de encerrar a visita. De quebra ainda faz um escalda pé de pétalas de rosa ou monta um buquê para levar de lembrança. Mas, nada de esquecer de voltar.

De volta a Ubajara

No último post chegamos a Ubajara e seus engenhos de rapadura. Veremos, agora, duas ou três coisas sobre a princesa da Ibiapaba, bonita por natureza, como é chamada por tantos que fazem dela seu meio de vida e onde moro desde a última década do século passado.

Encravada no alto da serra/ Onde acaba o agreste sertão, conforme afirma o hino, na Chapada da Ibiapaba, fronteira Ceará/Piauí, com clima ameno, mata que já foi luxuriante, nascentes e olhos d’água que a livravam da escassez hídrica do semiárido, um oásis na paisagem seca do sertão. Situação que lhe permitia (como às outras cidades da região) desenvolver durante o ano inteiro uma agricultura, baseada na cana de açúcar e no café, plantado à sombra das árvores. Abacateiros, mangueiras, jaqueiras, bananeiras completavam a paisagem, garantindo a oferta de frutas na época e das matas se extraia muita ‘madeira de obra’, exploradas, sem plano de manejo, até a sua exaustão.

Mas a joia da coroa é sem dúvida a Gruta de Ubajara, parte de um conjunto de formações geológicas de grande importância espeleológica, paleontológica e arqueológica, que motivou a criação do Parque Nacional de Ubajara, visitado anualmente por milhares de interessados em conhecer sua biodiversidade e beleza cênica. Do Parque, nasceu a ideia da construção do bondinho, teleférico que facilita o acesso à gruta, quando nos 1970 o governo do Estado resolveu olhar para a Região, até então entregue à própria sorte, e procurar desenvolver seu potencial. Uma vocação evidente era o turismo.

O bondinho virou ícone de Ubajara e o responsável pelo dizeres Ubajara Capital do Turismo da Ibiapaba que encontramos na entrada da cidade. Junto com a gruta, da qual é parte indissociável, era atração para turistas do mundo inteiro. Difícil de entender que fique parado por anos, como acontece agora, sem data prevista para a volta, por negligência total dos órgãos responsáveis. E pela segunda vez, desde sua inauguração. Mas isso é assunto pra outra conversa.

Agora, vamos falar de gente que faz. Sem esperar pela solução que vem pronta, o ICMBio, sob a batuta do Chefe do Parque, junto com o pessoal da COOPTUR resolveu incrementar e dinamizar as trilhas já existentes, oferecendo várias opções de visita, que atendem a demandas diversas. Incluindo uma trilha noturna nas noites de lua cheia, encantadora e romântica. Os visitantes responderam positivamente. E o Parque Nacional de Ubajara está mais vivo do que nunca.

A vida é doce, mas é dura. Ou vice-versa.

Viajar entra no meu vocabulário antes mesmo de eu me entender como gente. E as primeiras lembranças são as viagens para Ubajara, terra natal de minha mãe, destino certo nas férias de meu pai, quando ainda usava cueiros.

E a mais viva recordação destas viagens é o engenho de rapadura. Os tachos fumegando, misturando sua fumaça com a neblina que cobria a serra. A cana triturada no engenho, produzindo a garapa (doce sem precisar de açúcar) e respingando no couro da gente. Os bolões de rapadura quente comidos na beira da gamela. (Brinco que fui criado numa gamela e anos mais tarde uma amiga registrou uma imagem que me levou a este tempo e que divido com vocês).

Findo o inverno, em quase toda propriedade rural da região funcionava um engenho, movido a tração animal, visitado por um enxame de pessoas atrás de beber uma cuia de garapa, levar um bolão de rapadura quente ou uma marmita de mel, sob o olhar resignado do proprietário. Garapa, puxa, batida de gamela, rapadura quente, delícia para todos, prejuízo pro dono. No engenho da família, a força motriz era um locomóvel a vapor, que abastecia duas fornalhas, elevando a produtividade, além de tocar uma serraria e outros equipamentos.

A rapadura, açúcar e doce de pobre, era produzida em milhares de propriedades agrícolas espalhadas Brasil a fora, com tecnologia própria em cada região. No Ceará, os principais polos eram a Ibiapaba, o Cariri e algumas regiões do Litoral. Produção artesanal, com ligeiras variações de textura e sabor, conforme a origem. Mas, de ampla aceitação em todas as classes. E obrigatória no soim do trabalhador rural.

Mudanças nos hábitos alimentares trazidas pelo sistema agroindustrial, alterações nas relações de trabalho no campo, êxodo rural, ruídos na distribuição e comercialização são alguns dos fatores que provocaram o declínio da agroindústria artesanal de rapadura. A maioria dos engenhos de rapadura fechou e o mar de cana sumiu. A troca do boi por motores a diesel e depois elétricos não resolveu o gargalo da modernização tecnológica e mercadológica que emperrava a produção.

Um grupo de produtores de rapadura de Ubajara ainda se propôs a enfrentar o desafio de modernizar o setor, no final dos anos 1990. Criaram uma Associação de Produtores de Rapadura (ASPORRA, na sugestão deles, APRODOCE, no nome oficial), visitaram regiões produtoras, buscaram assessoria no SEBRAE, mas foram brecados por um desses economistas cabeça-de-planilha que abundam por aí. Afinal, eram pequenos produtores, apesar de seus negócios irem melhor que o de muitos grandes.

Ficam as lembranças.

(fotos de Regina Cunha, João Caram e do autor)

Guardados

Recordações são uma viagem. Do armário brotam equipamentos, publicações, fotos, slides, cromos e negativos lembranças de tempos e profissões do passado.

Por muitos anos fui fotógrafo profissional. Fotógrafo é aquele enxerido que as pessoas e empresas contratam para produzir uma imagem que faça jus ao que pensam de si mesmos. Nem sempre o retrato corresponde à expectativa, ou exagera na crua exposição da realidade. É tratado com polida deferência e indisfarçada desconfiança.

Neste tempo de culto à imagem (que coincide com o aparecimento do ser humano no Planeta) é profissional indispensável. Mesmo depois das digitais e smartphones que colocaram a fotografia na mão de todos, é figura requisitada. Antes do aparecimento da fotografia, em 1822, esta função era exercida por outros profissionais das artes visuais. Ao longo da história, muitos fotógrafos elevaram o meio (media/mídia) ao status de arte, com sensibilidade, criatividade, rigor e apuro técnico.

No meu caso, um profissional correto, que trabalhava para grandes empresas da construção pesada e civil, indústrias de base e algumas agências de publicidade de Minas Gerais. O ramo menos remunerado, mas que te livra da latomia de mães de noivas e debutantes. Na época, o primeiro grupo de clientes tinha obras e equipamentos espalhados em todo o Brasil, o que me rendeu 10 anos de, no mínimo, um voo por dia para estar onde acontecia o milagre brasileiro. Viajar e conhecer novos lugares sempre foi minha paixão.

Quem hoje clica compulsivamente em seu smartphone em todos os lugares públicos e privados não faz a menor ideia das restrições a que era submetido um fotógrafo naquele tempo. Não podia fotografar militares com copo na mão ou de boca cheia. Prédios públicos, aeroportos, bancos, supermercados e mais um tanto de lugar só com autorização prévia. Quem ousasse arriscar um instantâneo despretensioso, corria o risco de dar com os costados numa delegacia de ordem política e social (DOPS), passar a noite num quartel, a contragosto ou ficar guardado um tempo numa prisão da Polícia Federal. (Não eram opções excludentes, por certo.)

Hidrelétricas, estradas, plataformas, linhas de transmissão, portos, entre outras obras, prometiam construir a infraestrutura de um Brasil Grande, com economia moderna, à altura de seu potencial. As fotos eram encomendadas para transmitir esta visão. No entanto, acabavam captando um pouco das contradições do modelo, Parte importante do meu trabalho acabou ficando nos arquivos das empresas, que entendiam ter adquirido até a alma do fotógrafo pela merreca que pagavam. Pelos 1980, os profissionais da fotografia se uniram e fizeram valer um mínimo de regras, no tocante à remuneração e direitos autorais, relutantemente aceitas pelos contratantes.

Fechado o parêntese e voltando ao armário, não faço a menor ideia do destino deste material. Repassar os filmes para empresas que recuperam a prata é o óbvio, sempre postergado para depois de uma seleção nunca realizada. Enquanto isso, vou azucrinando os leitores.

A mão invisível

Gilvan e Cirlando não fazem a menor ideia da existência de uma mão invisível que conduz o desenvolvimento da economia com equilíbrio, eficiência, moderação e justiça.

Esta expressão, usada uma única vez por Adam Smith (1723-1790) nas mais de seiscentas páginas de seu livro, A Riqueza das Nações (1776), tem sido usada e abusada pelos economistas cabeça-de-planilha para esconder sua incompetência e seu viés ideológico. Com certeza nunca leram o livro, nem mesmo a versão reduzida publicada pela Penguim&CompanhiadasLetras. Para eles é apenas um bordão (ou seria chavão?) repetido mecanicamente para aparecer na mídia, apelidados de especialistas.

Voltando aos personagens da vida real, os dois, e milhões de agricultores espalhados Brasil afora, estão absolutamente  conscientes da existência do mercado, não uma entidade etérea e abstrata, mas um lugar cujo funcionamento obedece a leis e mecanismos determinados por atores reais. Atravessadores, distribuidores, atacadistas, traders, varejistas, todos especulam com maestria, manipulando descaradamente a oferta e a procura, que apesar de Lei Federal, deixa muita brecha pros espertos.

E o consumidor, nisto tudo? Ora, ele conta com a mídia para convencê-lo que continua no comando. Repórteres especializados, comentaristas abalizados sempre encontram uma justificativa técnica, meteorológica, climática, infraestrutural ou legal para esconder a especulação e salvar as aparências. Justificam até uma Economia Astrológica, ramo desta Ciência que utiliza números cabalísticos e cálculos esotéricos para esconder o desconhecimento da economia real. (Já viram ministro da Economia de algum país falar em trilhão além do nosso?).

Na realidade, milhões de pessoas morrem de fome embora haja uma super produção agrícola que deprime os preços pagos aos agricultores. A escassez de qualquer produto some tão logo o agricultor lança sua semente na terra, atraído pela sinalização dos preços. E o consumidor de orgânicos jamais se beneficiará de um aumento de produtividade pois faz parte de um mercado de nicho onde a demanda é inelástica. Tudo com mãos bem visíveis.

E no sacolejar da carroça se ajeitam os jerimuns e o “bem estar da sociedade”,

Gilvans, Cirlandos, Gracietes, Enoques, Ditas, Sebastiãos, Clemildas e outras tantas pessoas agricultoras continuam na labuta, ignorados e esquecidos , ao longo de séculos, pelos em postos na vida. Que embora usufruam do bom e do melhor de seu trabalho, só lembram deles para retirar direitos, oferecidos com devoção ao DeusMercado, divindade que se ceva na miséria dos desvalidos.

Afinal, para que serve a Economia? Adam Smith, na citada obra que lhe deu os fundamentos dá uma dica: “Nenhuma nação pode florescer e ser feliz enquanto grande parte de seus membros for formada de pobres e miseráveis.” (A Riqueza das Nações – 1776).

Isso não te diz alguma coisa?