Monumental.

É o termo que melhor define esta obra. Construída em alvenaria de pedra, em arco romano, coroada com cerâmica portuguesa, guarda corpo trabalhado em ferro vindo da Inglaterra e pilares em cantaria, perfeitamente integrada com a serraria que o contorna, com dois portentosos inselbergs como ombreiras, encanta a visão de quem a visita. Foi tombada pelo IPHAN e é uma das atrações turísticas de Quixadá.

A construção do açude prometia resolver de forma definitiva os problemas causados pelas secas no Nordeste (na época se dizia Norte). Inaugurou o ciclo de obras contra a seca, hoje contando com centenas de açudes. E a seca? Fenômeno climático periódico, acima das ordens e interesses dos governantes, continua a ser uma calamidade para a maioria dos sertanejos e oportunidade de ganhos para os poucos que vivem de sua indústria.

Sem um projeto de Nação, as grandes obras serão apenas monumentos megalomaníacos, incapazes de proporcionar os benefícios prometidos em sua concepção. Euclides da Cunha captou isso na campanha de Canudos. Diferentes sugestões foram apresentadas na época para enfrentar o problema. Adotadas em conjunto ofereciam a oportunidade de minorar e prevenir as calamidades presentes e futuras. Optou-se pela solução única e definitiva, a bala de prata: uma grande obra. Até parece o Brasil atual que acredita em panaceias universais e salvadores da pátria.

O caminho é o acesso à terra e à água. André Rebouças, engenheiro que visitou as regiões atingidas pela seca de 1877, recomendou a distribuição de lotes aos sertanejos, enquanto se faziam açudes, cisternas, poços, “estabelecendo as bases para reconquistar o sertão”. A seca é um fenômeno natural, a cerca, invenção do homem. A primeira, periódica, a outra, perene. Experiências de convivência com o semiárido, com tecnologias simples, de baixo custo, acessíveis a muitos e com resultados palpáveis, dão razão a Rebouças.

Seria, então, o açude do Cedro monumental e inútil, como disse Euclides da Cunha? Longe disso. Ele mesmo reconhece seu valor local como inapreciável. Majestoso e belo, aguarda sua visita. De quebra você será brindado com a magnífica paisagem de Quixadá, repleta de inselbergs e monólitos (ou monolitos). Com disposição, vá até Banabuiu pra conhecer outro açude. Se achar que tem pouca água saiba que tem mais a ver com a ação do homem que com fenômenos naturais. A Natureza age em perfeita integração. Aprenda com ela e valorize a vida.

Fazenda São Joaquim

La pelos 1958 meu pai pediu transferência da Coletoria Federal de Piracuruca/PI, onde nasci, para Senador Pompeu/CE. Na época, eu tinha terminado o curso primário e precisava aguardar a idade exigida para fazer o exame de admissão para o ginásio. De forma geral, os nascidos a partir de 1º de julho, tinham este problema. Papai partiu para Senador para assumir o cargo, providenciar casa e coisas tais, enquanto mamãe e os irmãos ficamos aguardando na Fazenda São Joaquim.

A fazenda possuía diferenciais que geravam respeito e admiração nos que a conheciam. Por decisão dos irmãos após a morte do pai, a propriedade era tocada em condomínio. Todos trabalhando com um objetivo comum, com resultados compartilhados.“Um só coração, um só cofre”, “uma só panela, uma só bolsa”, expressões usadas por visitantes para expressar o que viam. Num ambiente em que a gestão de Sêo Chico, irmão mais velho, não tolhia as manifestações e iniciativas individuais. Do modelo resulta notável infraestrutura – açudes, canais, casa de fábrica, currais, aprisco para ovelhas e um casarão de uns mil metros quadrados de área coberta, onde os primos curtíamos as férias escolares, com a incrível sensação de pertencimento a um lugar mágico e real.

Atividades de lazer e trabalho não faltavam (sempre há muito trabalho a fazer no campo, mas nas férias nós acabávamos por priorizar o lazer, sem fugir das obrigações quando solicitados). Água encanada e luz elétrica, confortos ausentes da maioria das cidades do interior na época, eram ali uma realidade. A água vem do açude por um canal e é bombeada pra caixa por um carneiro hidráulico. A luz elétrica por um gerador movido por um locomóvel, que se desliga, mais ou menos, pelas 8 da noite, que a vida na fazenda, começa às 4, tirando o leite das vacas.

A criatividade, inovação e empreendedorismo, ali praticados desde sempre, muito antes de virar mantra dos gurus de negócio, não impediram que a fazenda ficasse imune ao modelo de modernidade adotado no País. Ao optar por fortalecer o sistema de plantation, implantado no Brasil pelos invasores portugueses, foi decretada a morte do tipo de empreendimento adotado na Fazenda São Joaquim, no país inteiro. Monoculturas de exportação podem gerar divisas, mas não desenvolvimento. Os tios ainda tentaram obter ajuda de técnicos competentes. Mas, análises parciais e recomendações pontuais pouco efeito teriam pra reverter o modelo hegemônico adotado.

As pessoas que construíram este mundo hoje estão encantadas. Ninguém da família mora mais lá. Quando surge ocasião, alguns nos reunimos ali para usufruir do espírito que teima em permanecer no que foi feito com tanta alma. As construções que permanecem são testemunhas do engenho e arte daqueles construtores de sonhos.

O ano que passamos lá foi simplesmente incrível. Banhos, pescarias, caçadas, passeios de bicicleta e cavalo, além da vivência plena da dura realidade do dia a dia rural. Mas, o principal foi conviver com as pessoas, que com suas ideias e seu trabalho, tornaram aquilo tudo real. Ver um engenheiro, que saíra dali para estudar, voltar para aplicar seus conhecimentos em benefício dos seus. Ver um doutor médico tirar o jaleco, pegar um machado, cortar empilhar a lenha da casa como um trabalhador que sempre foi. Saber que tudo fora feito sem favores, financiamentos privilegiados ou arranjos que comprometessem a independência. Aprender a valorizar o trabalho e respeitar o trabalhador. A pensar por conta própria e a ouvir e ponderar o pensamento dos outros.

Valores que a traça e ferrugem não corroem e os ladrões não roubam.

Vastas emoções, relatos imperfeitos

Alguns anos atrás, Pedro, cujo chamego por bicicleta vem desde cedo, anunciou uma viagem de Fortaleza a Jericoacoara, no pedal, pela praia. Fiquei encantado e foi minha entrada no mundo do cicloturismo.

A viagem era a concretização do desejo de aventura e liberdade, proporcionado pela atividade, desenvolvido ao longo do tempo, em pedaladas pela cidade e em papos e troca de ideias com o amigo Tiago, companheiro nesta e noutras incursões. Sucesso total, compartilhada pelo Facebook, e repetida algumas vezes com parceiros diversos. Na esteira, outras – de Porto do Mangue (RN) a Caponga (CE), de Redonda a Jeri, incluindo o Litoral Leste. Lamentei profundamente ter parado de pedalar há tanto tempo, sem tomar nenhuma atitude para recuperar o atraso, porém.

Em agosto, Pedro me convida para dirigir o carro de apoio numa viagem que ele e um companheiro fariam de Peroba até o Porto das Dunas. A função: levá-los ao ponto de partida e vir trazendo o carro pela estrada, enquanto seguiam pela praia, encontrando-os em pontos determinados ou atendendo alguma emergência. Aceitei de pronto.

Márcio estreava neste tipo de viagem com muita expectativa e disposição. Da mesma forma, eu. Acertados os detalhes e pontos de encontro, cada time tomou seu caminho.

O primeiro ponto de encontro foi em Ponta Grossa, de coloridas falésias e simpáticas criaturas de poderosa canhota. Na sequência, Quixaba e logo Canoa Quebrada, ponto final do primeiro dia. Registrava as chegadas e partidas dos ciclistas e alguns pontos de interesse quando a câmara e o smartphone estavam de acordo.

O barato do cicloturismo é que você pode traçar o roteiro de acordo com seu modo de vida. Pode mesclar aventura radical com os confortos da vida dita civilizada. No caso desta viagem, puxadas pedaladas na praia, travessias de rios, escaladas de rochas e falésias, estrada carroçal e de asfalto, com paradas em pousadas para o descanso e reposição de energias. Quilometragem menor no primeiro dia, para aclimatar, aumentando nos dias subsequentes.

A viagem seguiu numa sucessão de praias – Pontal do Maceió, Canto Verde, Uruau, Caponga, Barro Preto… – que combinavam cada uma a seu modo o sol, a areia, as ondas, a ocupação para deleite dos viajantes e dos ocupantes do carro de apoio. A planilha foi cumprida à risca e os objetivos plenamente alcançados, como pode ser verificado nas fotos feitas pelos protagonistas, disponibilizadas na internet.
Cicloturismo não é competição, mas superação e realização. Assim, ao final da viagem o sentimento que lhe invade é a felicidade pela experiência vivida, pelo caminho trilhado em busca do que você tem de melhor.

É isso aí.

O caminho se faz ao pedalar.

Rafaela Asprino e Antonio Olinto, cicloturistas de muitas léguas, estiveram em meados de agosto em Fortaleza para o lançamento de seu mais recente guia de cicloturismo – Serra do Espinhaço. Foram dois ótimos bate-papos, reunindo os aficionados, numa troca de ideias, informações e emoções. Com muita simplicidade, sem fórmulas ou receitas, muitos caminhos foram trilhados e memórias arrancadas do fundo do baú.

Minha primeira bicicleta, de segunda mão, foi presente de aniversário. Pequena, mas sem aquelas rodinhas ridículas para aprendiz, me causou tremenda excitação. Só fui dormir quando aprendi a pedalar, me equilibrar, fazer curva e usar os freios, num dia intenso de treinamento. Logo, estava me exibindo pela cidade, fazendo estrepolias com destemor e presunção. Num instante surgiram amigos para explorarmos juntos tudo o que os arredores de Piracuruca tinham de interessante.

Em pouco tempo, estávamos os três irmãos devidamente equipados, com bicicletas Monark, Guliver, ficando a já citada para o caçula. Abriam-se as porteiras de um novo mundo. Mesmo sem marcha, a gente chegava aonde não dava pra ir a pé, nos caminhos pueris e lamurientos de Piracuruca, Senador Pompeu e Cascavel. Sabíamos das histórias do Baptista, nosso pai, ciclista de mão cheia, que vencia léguas no pedal procurando um bom arrasta-pé, em seu tempo de solteiro. E vimos muitas vezes o Zé Cesário vencer a distância da Caiçara ao Ipuzinho, com a bicicleta carregada, coisa de duzentos quilômetros, num único dia. Dava pra pensar longe, mas a vida tomou outro rumo.

Transporte individual por excelência, tem uns que exageram na criatividade, para chamar a atenção. Já os artistas propõem a reflexão, como nesta instalação de Weiwei.

É o meio de transporte mais utilizado no mundo e aqui no Brasil está presente na cidade e no campo, para trabalho, transporte ou lazer. No entanto, alguns cultivam profunda birra pela bicicleta. Será pela liberdade do ciclista traçar seu próprio caminho, ditar seu próprio ritmo, conhecer a si mesmo? A sociedade, apesar de egoísta e individualista, se sente mais confortável com o comportamento de manada.

O barato do cicloturismo é que não é uma competição. É uma experiência que cada um faz por prazer, dentro do ritmo e possibilidades individuais. O instigador papo entre Olinto, Rafaela e os cicloturistas desperta a vontade de montar na bichinha logo cedo e ganhar o mundo. O condicionamento físico, depois de meio século sem pedalar, grita ser isso ousada travessura. Portanto, viajar só na imaginação, ou melhor, acompanhar as viagens do filho, cicloturista ativo, que dá sequência às aventuras do pai e do avô, com muito amor, zelo e competência. E constatar que, desde os 1930, sempre tem um da família achando no pedal o caminho da felicidade. Uma noite mágica, de verdade.

Pé na estrada

Vem do berço o hábito de viajar. Natural, portanto, que Rosa e eu tenhamos colocado os pimpolhos na estrada tão logo surgiram as oportunidades. Talvez uma inconsciente volta à feliz infância. Certo é que de carro, ônibus, avião, muitos lugares foram visitados, muitas experiências vividas.

Praias, montanhas, cacheiras, grutas, o destino quase sempre determinado pela oportunidade. E aproveitado ao máximo, dentro das características de cada um. Mesmo alguns programas de índio acabaram por deixar boas lembranças.

Maquiné, Caraça, Serra do Cipó, Iguape, Canoa Quebrada e tantos outros lugares chegando até o Cariré, Ubajara e Piracuruca. Longas viagens de ônibus, rodoviárias deploráveis, hotéis cujas estrelas eram as vistas pelos furos do telhado sem forro. Algumas vezes com a companhia de sobrinhos ou cunhadas.

Ainda hoje, quando a ocasião se apresenta, curtimos viajar juntos. Não importa para onde. Até mesmo a cidade onde vivemos oferece infinitas possibilidades. O importante é a descoberta, a aventura, o prazer.

Acredito que o vírus de viajar foi inoculado na garotada. Cada um a seu jeito curte a paixão. João, com roteiros que vão da Nova Zelândia a Bratislava passando pela Islândia. Maria, descobrindo a alma e desconhecidos lugares de Belzonte, Bath, Paris, Berlim, Sampa ou Fortaleza. Pedro, sempre o mais trilheiro, une o ciclismo com as viagens, palmilhando cada canto do litoral cearense, com a sua MARPEDAL. E, graças à tecnologia de informação e redes sociais, continuamos a viajar juntos.

(Fotos do aplicativo de rejuvenescimento, também conhecido como álbum de família e dos citados no post.)

Nosso mundo, nosso lar

A Natureza foi generosa com Ubajara, criando aqui um idílico Jardim do Éden, que habita a cabeça de todo cristão. O Parque contribui para sua conservação e funciona como um chamariz para os visitantes, que fazem da cidade o ponto de partida para conhecer as belezas da Ibiapaba.

Já os habitantes não retribuem tanta generosidade. Fora dos limites do parque, as nascentes e cursos d’água que alimentam suas cachoeiras e os rios que correm para o poente, em direção ao Piauí, se encontram em avançado estado de degradação. O mesmo descuido se observa no trato da cidade, seja pelos moradores, seja pelas autoridades.

De resto, coerente com o egoísmo do ser humano, incapaz de se ver como integrante de uma cadeia ecológica, crente que a vida gira em torno do próprio umbigo. Verdade que alguns empresários começam a entender que as belezas naturais podem ser fonte de lucro e se preocupam com empreendimentos minimamente sustentáveis. Menos mal, mas muito já perdemos.

Seguindo os rios que já não serpeiam tão cantantes encontramos a Cachoeira do Boi Morto, muito frequentada aos domingos e palco do encerramento do carnaval ibiapabano, na quarta feira de Cinzas. Mais à frente, o açude Jaburu, com alguns balneários, de onde os mais dispostos podem enfrentar árdua trilha até a belíssima Cachoeira do Frade, simplesmente indescritível, e ainda preservada pela dificuldade de acesso, mas ameaçada pela falta de um plano de exploração.

Conhecer uma produção industrial de rosas oferece um contraponto à natureza, sem deixar de lado a beleza. Acompanhar todo o processo produtivo e entender porque o clima da região atrai este tipo de investidor é uma boa forma de encerrar a visita. De quebra ainda faz um escalda pé de pétalas de rosa ou monta um buquê para levar de lembrança. Mas, nada de esquecer de voltar.