Caminhando

E mais uma vez a Terra dá uma volta completa em torno do Sol. Um ciclo que chega ao seu final, ponto de partida para um novo que se inicia. Nessa época, os humanos fazem um balanço do ano que passou, metas para o ano vindouro e formulam sinceros votos de feliz ano novo para si e os demais habitantes do Planeta.  

Pra quem vive no Brasil, o ano não foi lá nenhuma brastemp. Muita gente abdicou de pensar com a própria cabeça e elegeu o whatsapp como oráculo da verdade. Passou a acreditar em qualquer barbaridade postada na rede como um dogma revelado. E quando a mentira é tão valorizada, o futuro não é muito promissor. Sem dúvida um prato cheio para roteiristas, o caso do estranho país onde pessoas alfabetizadas acreditam em mamadeira de piroca. Natural, pois, que apareça os que acreditam em terra plana, num alegre exercício de involução.

A natureza (que precede o ser humano e dele não depende pra nada, antes pelo contrário) continua, porém, em constante evolução. Apesar de perseguida implacavelmente, por ignorância e cobiça, se renova e revive a cada estação, numa reciclagem constante. Sem pudor e sem culpa, explode numa profusão de cores e cheiros, celebrando a vida e garantindo sua perpetuação.

Mas a vida é esperança e estão aí Greta Thunberg e Luiza Erundina para confirmar. A criança que ousou avisar que ‘o rei está nu’, provocando a ira dos aproveitadores poderosos. E a militante que vive sem envelhecer. Pessoas representam o que há de melhor em nossa espécie e nos permitem acreditar que o futuro pode vir.

Feliz Ano Novo!

Ou então

“Pois que reinaugurando essa criança / pensam os homens / reinaugurar a sua vida” diz, otimista, o poeta João Cabral de Melo Neto. Pergunto: quantos de nós temos consciência do que estamos comemorando nesta data? Evidente que os que debocham dos que não podem comprar carne, não.

Diferente de outros profetas que se declaram emissários do Altíssimo, Jesus Cristo proclama sua divindade. Não é apenas o mensageiro, é a própria mensagem. Essa ideia de um Deus de carne e osso, vivendo no meio de nós,  provoca uma nova relação do homem com a sua fé. Sai de um plano etéreo para um compromisso com o real cotidiano. Impossível, para quem acredita, dissociar Deus de sua obra.

Jesus não deixa barato. Questiona uma prática religiosa baseada em regras, ritos, oferendas, tudo aparência pra esconder o que dizem as Escrituras. Como podem dizer que acreditam em Deus se destroem, na maior, tudo que Ele criou? Se humilham e maltratam seu semelhante, como se não fossemos todos irmãos? Como cultuar um Deus invisível, se todas as Suas manifestações são ignoradas? Sempre firme, mas sem perder jamais a doçura. A única vez que perdeu as estribeiras foi com os ministros da religião que usavam o templo para negócios e enriquecimento pessoal. Reza bonita, gestual apurado, coreografia ensaiada de nada valem sem a ação de acordo com os ensinamentos.

Uns comemoram a data com uma grande ceia – peru, pernil, presunto, panetones, vinhos finos, cristais. Outros reúnem a família e celebram dentro das possibilidades. Muitos dependem da solidariedade de pessoas de boa vontade para ter um gostinho de natal, como lembra magistralmente Assis Valente. A mídia – jornais, rádios, tvs, sites – logo sairá com os resultados das vendas natalinas, torturando os números até que confirmem a tão proclamada recuperação da economia, que só não alcança os mais necessitados, como mostra o Ipea. Não é mesmo tão peculiar que a economia não sirva pra melhorar a vida das pessoas? Coisa nossa, que nem a jabuticaba.

Pelo que narram os Evangelhos, provavelmente Jesus Cristo comemoraria hoje seu aniversário na casa de um carpinteiro desempregado em nome da moral e do ‘correto funcionamento da economia’. Talvez, aproveitasse pra bater um papo com Francisco, Boff, Stédile e outros que são perseguidos por manter vivos Seus ensinamentos, na construção de um mundo de amor, justiça e respeito, dando azo aos votos do poeta: “e possa enfim o ferro / comer a ferrugem / o sim comer o não”.

Feliz Natal!

Poema Cartão de Natal, de João Cabral de Melo Neto, no livro Museu de Tudo, edição de 1976 da Livraria José Olympio Editora. Pode ser visto aqui. <> Primeira e última foto, Flor do Natal, presente aqui na região e que flora uma vez por ano nessa época. <> Outras fotos, encenação do Natal pelos coroinhas da Paróquia de São José Operário de Ubajara, com os meninos da Associação Estrela Dalva.

Bela, intensa e delicada

Todo ano a mesma coisa. No fim do verão, ao menor sinal de umidade ou chuva, ao abrir a porta da cozinha, o espetáculo deslumbrante da floração do café. Nos últimos 20 anos, tem acontecido entre o final de outubro e princípio de janeiro. Uma explosão de branco e cheiros que deslumbra a todos.

Durante o verão, após a colheita, o cafezal vai se preparando para a próxima safra. Tão logo sente que o tempo vai mudando, a umidade crescendo, qualquer chuvinha provoca a abertura dos botões. Botânicos utilitaristas afirmam que grande parte da polinização ocorre com o botão ainda fechado, por ser planta hermafrodita. Felizmente, a natureza não cai nesta conversa e nos brinda com uma manifestação de beleza inebriante, procurando garantir a plena fecundação de todas as flores.

O café tem importância fundamental na economia do Brasil, seu maior produtor e exportador. Aqui, no Ceará, é cultivado em regiões serranas, como a Ibiapaba e o Maciço de Baturité, à sombra de árvores, cabrucadas para atender a necessidade de luz do cafeeiro. Nos 1970, foi proposta uma modernização da cultura, cultivando-o a pleno sol, depois de um desmatamento irresponsável e insano. Após colheitas iniciais fabulosas, o modelo mostrou-se insustentável. Tecnocratas que ignoram a realidade são um desastre total, na agricultura ou na economia. No sítio, temos uma área de café da sombra, tradicional, que aumenta o encanto provocado pelas flores brancas, no estrato intermediário, dialogando com as outras plantas. Produzindo um grão, de bebida diferenciada, pra consumo próprio, sobrando um pouco, nos anos melhores para dividir com outros. Vamos esperar que a chuva venha na hora e quantidade certas, garantindo boa colheita.

A floração é o ritual de sexo das plantas. A estratégia que usam para perpetuar a espécie. Mostra que, mesmo pra reprodução, o sexo não tem de ser aquela coisa insípida, inodora e incolor, apregoada por próceres religiosos com a mente e o coração tomados pelo pecado. Envolve alegria, sedução, cores, cheiros, enfim variada gama de estratagemas para que o fim seja atingido com criatividade e prazer. A Natureza precede nossa presença no mundo. Aprendamos com ela, pois dela depende nossa vida. A flor do café é efêmera. Ao final do dia fica marrom e murcha. Mas todo ano explode de novo, mostrando que a vida sempre se renova. Vivamos, pois.

No meio do caminho

tinha uma pedra

Pense na balbúrdia. Exímio provocador, Drummond afronta os cânones da poesia tradicional e os limites impostos pela gramática. “Reacionários e gramatiqueiros”, os críticos vieram com quatro pedras na mão. Fino gozador, o poeta devolve a agressão quarenta anos depois, com o livro Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um Poema, reunindo, ironicamente, o publicado sobre o ‘poeminha da pedra’, Triste constatar, no entanto, que prolifera ainda hoje a mesma mentalidade tacanha, estulta e atrasada. Só que multiplicada por mil, nas redes sociais da internet.

Pedra lembra firmeza, solidez, segurança, monumento. Religiões a usam em altares, templos, memoriais, desde sempre. A Bíblia fala que Deus escreveu seus mandamentos na pedra pra mostrar sua permanência através dos tempos. Verdade que no primeiro embate entre a Lei de Deus e o dinheiro, Moisés teve de quebrar as tábuas da lei e foi obrigado a pegar uma segunda via. E o dinheiro se sentiu confiante para quebrar qualquer pedra que lhe trouxesse ganho, deixando crateras e rejeitos.

Uma pedra no meio do caminho nem sempre é apenas o obstáculo que nos querem fazer ver os desavisados. Pode ser um desafio, um convite à aventura, um atalho para a fama. Ou mesmo, um monumento, um marco da estrada ou só mesmo a quebra na monotonia da paisagem. Pedras estão espalhadas por esse mundão afora com várias leituras e significados. Brotam do chão, mantêm os rios nas calhas ou os fazem despencar em cachoeiras.

Divido minha vida, há meio século, com uma mulher linda sensível e bem resolvida, que tem verdadeira paixão por pedras. Não daquelas famosas, de nome e sobrenome, mas das pé duro que se espalham pelo sertão afora, empilhadas ao acaso sendo esculpidas pela ação do sol, do vento, da água. Sempre que dá estamos curtindo-as em nossas andanças. Vem de tempo. Quando começamos a namorar, elas eram nosso trampolim pra pular nos rios e açudes.

O ‘poeminha’ de Drummond tornou-se pedra angular da poesia modernista. Tudo que foi dito para desmerecê-lo esvaneceu no tempo. E ele chegou até nós, inteiro em sua simplicidade.

tinha uma pedra no meio do caminho

Belzonte Belóris Belô BH

Quando cheguei em Belo Horizonte, no réveillon de 1968, natural que me aproximasse de pessoas que vinham da Bahia, São Paulo, Paraná, ou mesmo, do Norte de Minas ou Triângulo Mineiro tentar a vida na cidade. Cada um com seu jeito de se integrar. Uma turma de Montes Claros, por exemplo, tinha como marca chamar a cidade de Belóris. Evidente que esta excrescência não pegou, mas todos identificavam a origem de quem usava. Os publicitários acabaram por impor Belô e BH. Pra mim, sempre achei mais adequado Belzonte, ca de que é assim que mineiro fala.

Sempre fiquei invocado porque mineiro chamava cruzamento de praça. Só agora, em 2019, tive a informação de que aqueles quarteirões triangulares dos cruzamentos eram, na realidade, o espaço destinado à sua construção. Caiu a ficha. Desde o início, a especulação imobiliária se sobrepunha à qualidade de vida. Nada a estranhar. portanto, que o Parque Municipal tenha sido reduzido pra menos da metade.

Se os construtores não conseguiram cumprir o plano original, magina quando a cidade ultrapassou os limites da Avenida do Contorno. Em meados do século XX, o governo do Estado se desfez de imensa área de terra nas proximidades do Palácio das Mangabeiras. Poderia ter pensado em encaminhar uma solução para as ocupações irregulares. Preferiu entregar para os especuladores.

Belzonte marca momentos importantes de minha vida. O ingresso na idade adulta. A afirmação profissional. A constituição de uma família. E uma rede de amigos, daqueles que se guarda do lado esquerdo do peito. Momentos tristes e tensos, vivíamos anos de chumbo. E alegrias, como a volta do irmão do Henfil. E o encontro com o Clube Atlético Mineiro Galo forte e vingador. Time que só tem uma estrela em cima do escudo simbolizando sua vibrante torcida.

Há 26 anos voltei pra roça onde fui criado. Metrópoles perderam o encanto para mim. Como diz o Rafael Limaverde (artista plástico cicloturista e poeta):“E lá se vão os “cosmopolitas”. Correndo, sempre correndo…(pra onde, nunca se sabe.” Mas sempre volto à cidade pra rever a família, os amigos, os lugares que continuam a dizer algo. Tenho profundo amor à Belzonte, que nesta quinta, dia 12, comemora seus 122 anos. Que não envelheça!

Chuteiras e mortais

Em 1958, o futebol brasileiro encantou o mundo com uma seleção que unia o talento inquestionável de seus craques a um sistema de jogo que lhes permitia exercê-lo. Um time compacto que fechava os espaços na defesa, dificultando o adversário e saia ordenado para o ataque causando estrago. Já no primeiro jogo, o lateral esquerdo Nilton Santos avança com consciência e deixa lá o seu. As qualidades do jogador brasileiro já eram reconhecidas há tempo (o Brasil jogara todas as Copas do Mundo), mas o esquema tático da seleção despertou a admiração de analistas e estudiosos que se dedicaram a estudá-lo e imitá-lo. Também chamou a atenção o trabalho dos cartolas, focados na conquista da copa. Que aconteceu com goleadas na semifinal e na final e a consagração do futebol brasileiro. De quebra, a revelação de Pelé aos 17 anos.

A Europa tratou de estudar e aprender com o que viu. Por aqui, cada dirigente tratou de capitalizar o feito pra sua promoção pessoal. Ainda fomos campeões 4 anos depois com a mesma base, mas chegamos em 1966 na mais completa desorganização, dentro e fora do campo, sendo eliminados na primeira fase. O susto fez os dirigentes contratar como treinador um comentarista lúcido e desassombrado, João Saldanha, que classificou o time pra Copa de 70 e recuperou o espírito do futebol brasileiro. Ato contínuo, João Sem Medo foi demitido ainda antes da copa. A equipe, entretanto, foi campeã, conquistando de forma definitiva a Taça Jules Rimet, roubada depois da sede da CBF, como sabemos. De lá pra cá, a cartolagem tem feito de tudo para destruir a reputação que o futebol brasileiro conquistou em campo. A torcida só fica conhecendo alguns jogadores quando convocados pra seleção.

Quando o Barcelona aplicou 4×0 no Santos na final do Mundial de Clubes de 2011, Guardiola declarou na entrevista – ‘jogo como aprendi que jogava o futebol brasileiro’. Antes, a seleção alemã de 2010 copiou, nos mínimos detalhes, todo o esquema de preparação do Brasil na Copa de 58, inclusive a sonora goleada nos anfitriões. Natural, pois, que a grande sacudida na mediocridade reinante no esporte tenha vindo de um técnico europeu. Embora, apenas dentro de campo. Fora dele, o descalabro persiste. O próprio time campeão, com todos os méritos, mostra seu descaso, com o incêndio em seu alojamento dos jogadores da base. Com trágicas consequências.

Acaba o campeonato brasileiro e os times alegam estar falidos. Como é que pode? Os cartolas sempre geraram muito dinheiro com o futebol. No princípio, eram as cotas de clubes convidados a disputar torneios em outros países, a exemplo do Santos dos anos 1960. Depois, a venda de craques para times europeus. Por último, a venda das revelações das categorias de base, para um mercado bem mais diversificado. Além dos patrocinadores, que poluíram os tradicionais uniformes, as cotas de transmissão dos jogos, as premiações de campeonatos, programas de sócio-torcedor, as rendas das bilheterias dos estádios (altíssimas, desque inventaram que futebol não é pra pobre). Tudo na casa de milhões e quase sempre em EURO ou dólar. Nunca se sabe o que é feito com esta grana. Vivaldinos aprovam a toque de caixa na Câmara Federal um projeto de lei de clube-empresa. Como se o problema fosse a falta delas e não a observância das que já existem.

Acompanho futebol, com paixão, desde criança. E não vejo nenhuma iniciativa para a mudança deste quadro. Talqualmente empresários de outros setores, vamos nos contentar em ser fornecedores de commodities, pleiteando sempre um novo programa de refinanciamento de dívidas, recuperação judicial ou desoneração fiscal. O futebol profissional do exterior já começa a dispensar a intermediação dos times brasileiros, negociando diretamente com os procuradores de jovens promessas. Daqui a pouco estaremos contratando jogadores em fim de carreira no exterior. Basta ver o entusiasmo que hoje desperta a seleção brasileira, palco privilegiado de políticos oportunistas. Geraldinos e arquibaldos estarão vendo campeonatos estrangeiros pela TV. E vivendo a emoção do futebol, jogando e curtindo peladas em campos de barro.

De vento, tempestade e tubarões

Tomei conhecimento de jangadas e jangadeiros ainda criança, em Piracuruca, antes de conhecer o mar. Dele sabia, por gravuras, retratos e histórias, ser imenso e cheio de mistérios. Dos primeiros, pelo relato embevecido da imprensa da saga de Jacaré, Tatá, Manoel Preto e Mestre Jerônimo – jangadeiros cearenses – que foram do Ceará ao Rio de Janeiro, em uma jangada de piúba, pra relatar suas dificuldades ao presidente Vargas. Para o menino, tornaram-se heróis mitológicos, de carne e osso, ali no vizinho Estado.

A façanha correu mundo. Saiu no NYTimes. Chamou a atenção de Orson Welles, no auge da fama. A imprensa enfatizou na cobertura o desassombro dos jangadeiros em enfrentar as dificuldades óbvias da viagem. Deixou em segundo plano sua motivação: denunciar as condições de trabalho da categoria. Parte, pela censura do Estado Novo. Na real, porque sempre escamoteou a verdade sobre as condições de vida dos trabalhadores. Até hoje pessoas com a consciência, a articulação e o desembaraço de Jacaré são um estorvo.

A jangada é um ícone do Ceará. Está no brasão do Estado e presente em todas as praias, hoje disputando espaço com banhistas, barracas, quadriciclos, bugies e extensa fauna de arrivistas. Nos dias de praia cheia são oferecidos passeios aos banhistas que queiram sentir um gostinho de aventura.

O jangadeiro continua com sua faina diária de tirar seu sustento do mar, enfrentando a falta de vento, tempestades e tubarões. Metade do que pesca vai pro dono da jangada, a outra para mão do atravessador. Se o lugar onde mora se presta a um resort vai aparecer alguém com um título de propriedade e terá de mudar dali. De tudo que pleiteou em suas viagens reivindicatórias, restou a aposentadoria, hoje ameaçada. A noção de progresso que nos foi inculcada o condenou ao desaparecimento sem apelação.

Qual será o seu legado?

Fica meu registro pessoal.