Não é de Deus nem do Diabo

Cinema foi programa obrigatório e gratificante em minha infância em Piracuruca. Víamos todos os lançamentos e depois íamos reproduzir as cenas nas areias do rio lá pras bandas da Ponte do Urubu, lugar distante da cidade na época. Hopalong Cassidy, Tom Mix, Tonto, Zorro, Tarzan, Flash Gordon eram parceiros de aventuras. No final, o mocinho aparece, vence o bandido e a paz e a felicidade se estabelecem. A vitória do bem contra o mal, o triunfo da justiça. Mais tarde a gente vê que tem muito bandido vestido de mocinho (já advertido por Esopo e Jesus Cristo). E que a vida tem mais nuances que o simples preto e branco.

Na primeira metade dos 1960, cinema era a maior diversão em Fortaleza. Nas sessões de sábado à tarde do São Luiz, rapazes de paletó, garotas nos trinques, a badalação contava mais que o filme exibido. Na segunda, começo a frequentar cineclubes e ver a atividade com outros olhos. A provocação de Glauber Rocha, uma câmara na mão, uma ideia na cabeça, acaba por me levar à Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, com o padre Massote citando Humberto Mauro – cinema é cachoeira – e mostrando que High Noon tem a mesma duração que o tempo cronológico da ação.

Enquanto via filmes dos grandes diretores, das diversas escolas cinematográficas, participava de produções amadoras para concorrer aos festivais, entre os quais sobressaia o Festival JB/Mesbla, colocando em prática o aprendido. Ao final do primeiro ano de escola veio o AI 5 e tornou mais difícil o que não era fácil. Ao final do curso optei por uma carreira de fotógrafo, me distanciando das lides cinematográficas. Foi mais ou menos nessa época que as tvs brasileiras começaram a transmitir a premiação do Oscar, aquele prêmio da Academia que indica BlacKkKlansman e premia Green Book. Na escola a gente sempre discutia o significado desse e outros prêmios, colocando-os na perspectiva correta.

Aí, já sacava a importância que os governos das grandes potências davam ao cinema, vendo a atuação de Harry Stone no Brasil. Hollywood foi a ponta de lança dos USA em espalhar seu americanwayoflife. O cinema americano torna-se referência de público e crítica em todo mundo ocidental. Não surpreende, pois, a violenta investida do macarthismo contra membros da indústria cinematográfica. Apesar dos estragos feitos na vida e carreira de profissionais talentosos, deixou evidente a ficção da ameaça comunista, trampolim usado por escroques inescrupulosos pra subir na vida. Não podendo prescindir do talento dos perseguidos, Hollywood encontrou formas de utilizá-los (pagando menos, é certo). E manteve seu glamour. Tanto que as fotos que ilustram este post é de uma cidade que se intitula a roliúde brasileira, por ter sido cenário de alumas produções nacionais. Lá, o bode é rei e ela tem muito mais a oferecer a quem a visita.

A diatribe macarthista do que há de pior na política e na sociedade brasileira contra a indicação ao Oscar do filme de Petra Costa mostra a triste situação que vivemos. Os eleitores da Academia não têm de prestar contas a patrão, nem são dependentes de governo. Podem votar se atendo aos aspectos técnicos e expressivos do filme, atendendo os padrões exigidos para indicação. Quem o viu, sabe ser uma narrativa pessoal, honesta, na voz da própria autora sobre fatos do conhecimento de todos. Até alivia, na grande, as aberrações da lavajato. E quem assiste filmes e/ou séries americanas sabe que juiz do tipo não se cria nos USA.

Hoje todo mundo tem uma câmara na mão, mas quase nunca uma ideia na cabeça. Ironicamente, o reconhecimento dos filmes brasileiros, desde O Cangaceiro (1953), tem acontecido no exterior, em festivais e premiações diversas. Por aqui, imprensa, críticos, exibidores, distribuidores, autoridades não se cansam de colocar obstáculos. O que salva é a persistência dos realizadores em demonstrar a existência, renovação e vitalidade do cinema nacional. Eu não me entrego não.