
Filhos? melhor não tê-los. Se não os temos, como sabê-lo? Fazendo a prova dos 9, posso afirmar que os filhos foram os 3 melhores presentes e as 3 maiores alegrias que a vida me deu. São eles e ela que me mostram as frestas onde a vida teima em pulsar, além das sombrias muralhas das redes sociais. E foi Maria, em sua última viagem à terrinha, que deu o mote dessa conversa ao lembrar que Fortaleza é o único lugar onde quando se pergunta “bora pular da ponte?” isso quer dizer vida.


Clara referência à Ponte Metálica, ali no Poço da Draga, onde os amantes de salto na água pulam todo dia, o dia todo, por prazer ou por esporte. Eu mesmo, na adolescência, era presença constante ali, me exibindo em mortais caprichados como sói acontecer com os adolescentes. Na verdade, antes de conhecer o mar, já aprendera as delícias e segredos de pular na água nos rios do sertão, que enchiam no inverno e onde oiticicas, pedras ou pontes serviam de trampolim.


Uma sensação indescritível. Flutuar no ar, mergulhar na água e não achar o fundo, voltando lentamente à superfície sentindo a água lhe acariciando e sorver o ar com vontade na superfície. (Parêntese: se achar o fundo, pode ser desagradável, como aconteceu comigo ao pular de uma ponte sem ver o nível do rio, sem maiores consequências porque não tenho pescoço.) Na última vez que estive na Ponte, lamentei não ter ido de calção pra pular junto com a turma. Hoje vejo que o Universo conspirou para me livrar dessa fajutice exibicionista sem noção. A visita da Maria me fez reviver todas as sensações em sua plenitude e de quebra ela fez um texto pleno de beleza e sentimento, que mostro trechos a seguir:


Voltando à questão inicial, é como pular da ponte e mergulhar sabendo que não vai dar pé, sem medo do bem que isso faz pra você. E coragem é o que a vida quer da gente, né João Guimarães Rosa? Não imagino a vida sem a cumplicidade aleatoriamente orquestrada dessas três pestinhas, sempre ligadas nas frestas, estradas e cores de uma vida que não tem medo de ser feliz.

P. S. As obras citadas de ‘bora pular da ponte’ e ‘sem medo de não dar pé’ são de Simone Barreto. Fica o registro.