Muitos anos de vida

O bom de fazer aniversário é que os amigos descobrem em você qualidades das quais você nem suspeitava. E lhe cobrem de mimos e elogios que fazem um bem danado ao corpo e ao espírito. Nesse tempo de redes sociais, acaba na boca do mundo, enfeitando uma biografia sem grandes feitos. No último dia 7, quando botei 2 anos em cima dos 70 já vividos, não foi diferente.  Com carinho e generosidade, se fizeram presentes. Sou imensamente grato.

Afinal, o que vale mesmo na vida é a partilha. Ninguém é uma ilha isolada e autossuficiente. Estamos sempre a fim de dividir nossas alegrias e tristezas com aqueles que nos cercam, sendo estímulo ou amparo, conforme o caso. O resto é conversa pra boi dormir.

Pegando o gancho na léria que os amigos fizeram em 1976, sou apenas um rapaz latino-cearense, sem dinheiro no banco, morando no interior. Na lembrança, uma canção do rádio onde um antigo compositor baiano me dizia: é preciso estar atento e forte / não temos tempo pra temer a morte. Com uma enxada na mão e o sentimento do mundo vivo o presente de mãos dadas com os companheiros, consciente de fazer parte de uma mesma espécie, que habita uma casa comum. Que venha agosto.

O caminho de Damasco

Segunda feira, dia de São Pedro, no YouTube, uma transmissão sobre o lançamento da segunda rodada do Finapop, um inovador sistema de financiamento para a agricultura familiar, articulado pelo MST e o Eduardo Moreira. Já falei do assunto aqui no blog e fico feliz em ver que vai andando com firmeza.

Duas coisas importantes a ressaltar. A primeira, a visão correta da luta, trabalho e resultados do MST, sem dúvida o movimento social mais demonizado pela grande imprensa. As pessoas que só o conhecem pelo que falam as TVs e os jornais têm dele uma ideia completamente distorcida por uma campanha orquestrada de calúnias e difamações. E repetem bovinamente o que lhes é passado, sem ao menos procurar o outro lado da questão disponível a um clique. Se o fizessem, veriam a estupenda atuação do MST no apoio aos vulneráveis durante a pandemia, escamoteada pela mesma mídia que alardeia a doação de qualquer merreca por seus anunciantes.

A outra, os recursos financeiros para um segmento que não conta com nenhuma linha de crédito, as cooperativas da agricultura familiar. É de estarrecer que um instrumento tão eficaz para produzir riqueza sem gerar desigualdade, seja tão pouco difundido e valorizado no país. Na verdade é menosprezado e enfrenta todo tipo de dificuldade para existir. E essa iniciativa do Finapop resgata o potencial que o cooperativismo oferece.

O cooperativismo é o sistema que potencializa os recursos de uma sociedade em benefício de todos. Coloca lado a lado o econômico e o social, o individual e o coletivo, a produtividade e a sustentabilidade. Aliás, como é o correto. Só mesmo gente muito tosca insiste em opor uma coisa à outra. A cooperação é a base do progresso e bem estar, como vemos na história da humanidade, enquanto as guerras só trouxeram destruição, morte e miséria para a maioria, embora uns poucos ganhem com elas.

Quem acompanha a trajetória das cooperativas da agricultura familiar no nordeste sabe quantas barreiras são colocadas em seu caminho. Mesmo assim elas avançam. E sofisticam agora, montando operações financeiras para suprir uma lacuna que é coisa bem Brazil. (De um Brazil que abdica do futuro, dedicado a destruir o que fez no passado.) No entanto, ao alcance de qualquer pessoa interessada num mundo melhor. Tem muito a ver com outras estratégias já usadas, como Agricultura Sustentada pela Comunidade (CSA, na sigla em inglês), que viabilizou o primeiro grupo de agricultura orgânica, na Ibiapaba. Então, é sair do comodismo, deixar de só ficar nas redes sociais, respondendo argumentos rasos de liberais de fancaria e partir pra ação. A picada tá aberta, bora fazer uma estrada.

Fotos do post feitas pela Rosamaria em breve e rica estadia no Assentamento Cristina Alves, em Itapecuru, em 2016. Aí fica a COOPEVI, no radar da próxima rodada do Finapop. Sonho que se sonha junto pode virar realidade.

Data querida

Pedro chegou para um churrasco que eu estava fazendo pros amigos num ensolarado primeiro sábado de julho. Uma alegria imensa. O churrasco foi adiado por incompatibilidade de agenda, a festa não. Nenhum problema, outros churrascos vieram e Pedro sempre presente e animado.

E hoje é o dia de comemorar os 40 anos de sua chegada. Uma data redonda, que marca uma convivência fabulosa com alguém que não cabe em adjetivos. Um dia de festa, muita alegria e pouca conversa. Parabéns!, Pedro e muito obrigado por tudo.

Coisas de futebol

Quando moleque, nas peladas de rua, os dois craques tiravam o par ou ímpar pra saber quem começava a escolher, alternadamente, os demais jogadores do time. O pior ia ser o goleiro e o segundo pior o ponta esquerda. Não sei qual a lógica disso. Sempre fui o ponta esquerda, embora sendo destro. Mas tinha a característica de chutar forte e bem colocado e sempre tava fazendo uns golzinhos. Como dizia Dario Peito de Aço, o Dadá Maravilha, ‘não existe gol feio, feio é não fazer gol’. Acabei ganhando o apelido de Pepe, por conta de José Macia, ponta esquerda de chute avassalador, integrante do ataque Dorval-Mengálvio-Coutinho-Pelé-Pepe, do fabuloso Santos F.C. de 1958.

Em 1958 completava meus dez anos e acompanhei pelo rádio a conquista da Copa do Mundo pela seleção brasileira. O som vinha em ondas, às vezes alto e claro, depois apenas um chiado. Uma conquista que fazia jus à admiração que o jogador brasileiro gozava na Europa, desde os tempos de Leônidas, o Diamante Negro, passando por Domingos da Guia, Jair Rosa Pinto, Julinho, etc. Pedro Escartin, um espanhol que escreveu um livro para cada copa, narra o feito em Suécia, Apoteose ao Brasil, lançado no Brasil em 1959. Comprei, encapei, assinei Pepe na primeira página e o tenho comigo até hoje. Me espanta que os comentaristas que abundam nas mesas redondas de futebol o desconheçam. Com certeza não falariam tanta bobagem sem fundamento.

No time que estreou em 1958, contra a Áustria, apenas um preto, Didi. Os dirigentes achavam que os pretos não tinham a capacidade de ganhar uma copa do mundo. Depois do 0x0 contra a Inglaterra e pra enfrentar a URSS, espantalho da copa, falam que uma comissão liderada por Nilton Santos foi ao Feola e cobrou a presença de Pelé, Garrincha, Vavá. Na final entra Djalma Santos, escolhido como melhor lateral direito da competição. Ganhamos o título, Didi foi eleito o melhor jogador e Pelé, a grande revelação. Olha o Jesse Owens aí de novo. Sílvio Almeida trata bem assunto aqui e aqui.

Junho é o mês do aniversário da maioria das conquistas da Copa do Mundo pela seleção brasileira.  29 de junho de 1958, na Suécia; 17 de junho de 1962, no Chile;  21 de junho de 1970, no México (conquista definitiva da Taça Jules Rimet); 30 de junho de 200230 , no Japão, o penta. Fora do mês, apenas a Copa de 1994, a única final com placar de 0x0, decidida nos pênaltis. Tenho certeza que se o técnico tivesse colocado em campo o Ronaldo Fenômeno, na época ainda um atrevido Ronaldinho, o resultado seria outro. Faltou ousadia.

Nas minhas regras pessoais de futebol, empate de 0x0 não daria nenhum ponto aos times. 1×1 e 2×2, renderia 1 ponto e se poderia pensar em dar 2 pontos para empate com placar superior. Em disputa de títulos, 0x0, ou levava a outra partida ou ninguém ficava com o título, esperando a próxima competição. Ia ser um avanço pro futebol. Felizmente, nas outras finais a diferença foi de pelo menos 2 gols.

Mas hoje é 29 de junho, dia de São Pedro, festa no mar. Há 62 anos eu tava batendo uma bolinha com os amigos, comemorando o título que acabava de acompanhar pelo rádio. E deixo isso aqui com vocês.

Baptista

Quando criança sempre achei que o dia de São João era 23 de junho. Neste dia, com uma grande fogueira e muita festa, se celebrava o aniversário do Sêo Batista, João Baptista de Oliveira, escrivão da Coletoria Federal de Piracuruca, meu pai. Juntava gente de montão, comidas, bebida, fogos e simpatias próprias da data. Uma festa de arromba, de se guardar para sempre no coração e mente. Já maduro, morando na roça, com os vizinhos estranhando o fato de eu fazer grande fogueira na véspera, é que me dei conta que o dia de São João era no 24 do mês.

Baptista era assim, animado e festeiro. Quando rapaz, pedalava léguas numa bicicleta para folgar num arrasta-pé. Em pelo, pra não suar a roupa de festa, mas com o risco de gozação se encontra conhecidos no caminho. Exímio pé de valsa, de fala mansa e envolvente é sucesso com as moçoilas. Ganha a pecha de namorador. Ao saber da fama, uma cearensezinha atrevida quis conhecê-lo: – aquele neguim ali!?! vai comer mansim na minha mão. Dito e feito.

Nossa convivência com Baptista começou anos depois, que o casal demorou a ter filhos. E foi repleta de vivências que deixaram legado importante. Como me levar pela mão, pequenino, ao mercado de Piracuruca quando ia fazer compras. Tão importante, que fiquei revoltado quando não me deixaram levar no passeio meu irmão que nascera na véspera. Ou suas proezas de salto mortal na ponte do rio Mal Cozinhado, em Cascavel, mergulhando com graça na água, sob os olhares de admiração e inveja dos presentes e de censura da mamãe. Criar vacas pra garantir leite de qualidade para os filhos, desconfiado da lisura dos leiteiros. E pautar suas transferências no serviço público às necessidades escolares dos filhos. Um rosário de peripécias e aventuras, cheios de ensinamentos, pelos sertões, serra e litoral no Piauí e Ceará.

Amoroso, espalhava a bondade e tinha especial prazer em fazer agrados às pessoas. Quando chateado ficava amuado, mas a birra passava logo. Não guardava rancor, não cultivava ódio, não criava inimizades. Numa rusga de família, quando seus irmão se intrigaram com um deles, não tomou partido e continuou a tratar a todos com o mesmo amor e respeito, sem deixar de frequentar nenhum. Era querido e respeitado por eles. Bem humorado, sempre tinha um chiste, uma pilhéria, um elogio, um galanteio e sendo o caso, uma ironia ferina. Adorava crianças e com elas se comportava como tal, sendo um ídolo dos sobrinhos e netos. Quando morava em Belzonte, meus filhos aguardavam com ansiedade as ‘encomendas’ que ele mandava, regularmente, cheias de sabores,cheiros e mimos.

Seus 80 anos de vida, plena de façanhas e epopeias, foram comemorados com fogueira e tudo mais de direito, conforme o figurino. A família reunida, amigos, comes e bebes nos trinques, como a data exige. Hoje, saudade muita, tristeza nenhuma que o dia é de festa e as memórias boas. Baptista vive. Viva São João!

Pingos nos ii

Um organismo é um conjunto de sistemas que funcionam como um todo mais ou menos estável, exibindo as propriedades da vida. A agricultura orgânica considera a propriedade agrícola como um organismo. Daí o termo orgânico. Tem a ver com a biologia e não com a química. A certificação é dada à propriedade e não ao produto. Por isso, na Europa, este modelo de produção é chamado de bio.  E a maior feira de orgânicos do mundo é a Biofach.

Muita gente acha que o nome tem a ver com os insumos utilizados. Na certa, por associá-la a uma produção sem veneno. E por ignorar o básico de produção agrícola. Desde 2005  o Ministério da Agricultura promove a Semana Nacional dos Orgânicos, na última semana de maio, princípio de junho, na esteira do Dia Mundial do Meio Ambiente. Procura informar ao consumidor as características do produto, onde encontrá-lo e coisas assim.  Nessa época, até agrônomo formado, que teve no currículo noções de fotossíntese, solo, nutrição vegetal, entre outras matérias, aparece para traçar uma visão deformada do assunto.

Verdade, sem as agressões chulas de 40 anos atrás, que diziam ser a agricultura orgânica coisa de ripie e maconheiro. Afinal, sua produção hoje frequenta as prateleiras das maiores redes varejistas e seus consumidores são letrados, bem informados e com renda acima da média. E tudo o que os movimentos orgânicos falam, há um século, sobre a agricultura industrial, hoje hegemônica, se confirmou. Ainda assim, despida do linguajar belicoso, com argumentação apoiada em premissas falsas e falácias toscas, a cruzada continua. Um tormento ler tanta besteira.

O que realmente interessa é que a agricultura orgânica, observando seus princípios – saúde, ecologia, justiça, precaução – se afirma como caminho para um mundo melhor, sustentável e justo. Um texto de Ana Primavesi mostra de forma esquemática as formas de cultivo atuais, incluindo uma discussão dos desvios da produção orgânica pra atender a explosão da demanda. É um bom começo para entender o assunto. Se orgânico vem de organismo, fica claro que este sistema é intrinsecamente ecológico. E, voltando à Primavesi, não é somente uma alternativa para quem quer produzir de maneira diferente, mas sim uma necessidade preeminente para todos os produtores.

Santo Antônio

Ubajara tem particularidades. A festa do padroeiro, São José, celebrada no mundo católico em 19 de março, aqui acontece no último domingo de agosto. Tranquilo, portanto, que o padroeiro da capela da comunidade de Santa Luzia seja Santo Antônio.

Desconheço a razão da escolha. Talvez a quantidade de homônimos ali existentes: Antônio Alexandrino, Antônio Boa Viagem, Antônio Cosme, Antônio Maria, Antônio Micota, Antônio Miranda, Antônio Sabino, ou o fato de se chamar Antônia a doadora dos bancos da capela. O certo é que, orador e milagreiro, Santo Antônio é muito querido pelo povo brasileiro e por ele celebrado com muita alegria e devoção, com direito a fogueira de vespra e no dia, tal qual São João e São Pedro, seus companheiros das festas juninas.

A festa começa antes do 1º de junho, com a ida nas poucas matas remanescentes para escolher o pau da bandeira, observados procedimentos e licenças. Diz z tradição que se uma moça pegar no pau de Santo Antônio casa dentro de um ano, o que pode ser verdade, conforme a interpretação. E começa a trezena, que pro santo novena é pouco. Enfeita-se o pátio e a capela e durante os treze dias a celebração corre solta, recebendo com alegria as pessoas das demais comunidades.

Tem barracas com caldo, canja, bolo de milho e macaxeira, animados leilões e eventos diversos. Acontecem casamentos, batizados, primeira eucaristia, atualizando os sacramentos para a comunidade, numa alegre confraternização. Um momento feliz de partilha entre pessoas que comungam o mesmo modo de vida. Ao final, a benção dos pães e sua distribuição para os participantes e seguimos com fé para enfrentar o verão e aguardar a próxima.

Este ano a celebração vai ser virtual. Cada um na sua casa se cuidando e com a devida atenção pelos outros. A celebração transmitida pelas redes sociais. Moderno, sem dúvida, mas que falta faz aquele convívio. É a vida. Viva Santo Antônio! Viva o povo brasileiro!

A arte de colher o sol

A agricultura industrial, dita moderna, é insustentável e perversa. Longe da nobre função de alimentar as pessoas, produz super safras que deprimem os preços, sufocando o agricultor e fazendo a festa dos especuladores das Bolsas de Mercadorias e Futuro, com a dança das cotações de preço da soja, café e commodities diversas. Adota pacotes tecnológicos que atendem o interesse das indústrias química, de sementes e de máquinas agrícolas, transformando a nobre arte de colher o sol num garimpo predatório. Conta com a generosidade da mídia pra esconder seus desmandos.

Minha ligação com a agricultura vem do berço, como falo por aqui em muitas ocasiões. Enquanto fotógrafo, com muito gosto, fiz trabalhos para publicações especializadas, empresas de assistência técnica e grandes organizações do agronegócio. Em meados dos 1980, fazendo uma matéria sobre o hortão do Nasser Youssef Nars, em Cachoeiro do Itapemirim, decidi voltar às origens e aplicar aquilo na minha terra. Nascia um projeto, que foi embalado com leituras de Ana Primavesi, Adilson Paschoal, José Lutzemberg, Sebastião Pinheiro, autarquias que pregavam a produção de alimentos saborosos e saudáveis, em perfeita comunhão com a Natureza.

Botar a ideia em prática foi uma luta braba. A agricultura tradicional da região foi desmontada pela ‘modernização’ posta em prática nos anos 1970, substituída pela produção de hortaliças e maracujá, no pacote químico (adubos e agrotóxicos) aprovado pelos bancos pra fazer custeio. Uma boa produção e produtividade não garantiam ganho, pois o agricultor dependia da roleta da Ceasa, paraíso dos atravessadores. Se desse bambu, que ele vendesse caro, vaca ou bicicleta pra pagar o banco ou a casa de adubo e veneno. No entanto, propor um modelo alternativo sustentável era coisa de insano, como me disse um gerente de banco e confirmavam agrônomos e técnicos, vendedores da indústria de insumos, com lucros garantidos. Minha primeira tentativa foi articular a cadeia da rapadura, para adequá-la às exigências atuais do mercado. Não rolou, mas mostrou que o caminho era organizar os produtores e a produção.

Organização imprescindível para enfrentar a descrença, ironias, chacotas e perseguição movidas pelos agentes do modo hegemônico de produção agrícola contra a proposta de produzir hortaliças sem veneno. Os próprios agricultores, cujos saberes foram ignorados e menosprezados pelos técnicos, criaram dependência química dos insumos da ‘modernidade’. Era forte a tentação de comprar as soluções prontas numa loja. E era um contrassenso levar a produção pra Ceasa. Uma associação de consumidores e agricultores viabilizou a produção orgânica de uma comunidade. E uma associação de produtores topou o desafio de atender a demanda por este tipo de produção, de uma grande rede varejista. Quebrava-se um paradigma. Muitos dos céticos acabaram se tornando clientes. Nos últimos 20 anos ficou demonstrado que é possível uma agricultura que cuide do solo, das pessoas e de toda forma de vida. E com assunto pra muitas outras histórias. Voltaremos.

Nossa Casa Comum

Um fato. Independe de nacionalidade, religião, nível de renda ou instrução, cor da pele, sexo, inclinação política.  Todos habitamos o mesmo planeta, Terra, profundamente ameaçada pelos nossos desvarios de grandeza. Ao completar 5 anos, a encíclica do Papa Francisco, Laudato si, mostra sua incrível atualidade, exortando para uma reflexão necessária e urgente. Esse sim, um barco em que todos estamos, girando pelo espaço.

Paremos pra pensar. Nesse 5 de junho fazem 48 anos que a Conferência de Estocolmo deu o alerta sobre a exploração predatória dos recursos naturais. No entanto, usando as mais esfarrapadas desculpas, o ritmo da destruição prosseguiu acelerado, sem nenhum benefício para a maioria da população. Antes, pelo contrário. Os desastres da Vale em Mariana e Brumadinho são um exemplo claro do que acontece com o mundo. Vidas perdidas, cidades destruídas, campos arrasados, rios poluídos. Séculos de história e trabalho sepultados na lama, impossíveis de serem recuperados, para satisfazer a avidez de meia dúzia de celerados, que continuam impunes a rir da cara das vítimas. O dinheiro não é tudo, mas é 100%, dizia Falcão e parece justificar todos os crimes.

O Papa Francisco acredita em Deus e fala a partir dessa perspectiva. Não é permitido ao homem destruir a obra do Criador. Mas não se prende em dogmas religiosos. Ao contrário, dirige-se a toda a humanidade, convidando a uma reflexão profunda sobre o nosso papel aqui nesse mundo. ‘Tudo está conectado’ é a mensagem central da encíclica. Ser humano, Terra e natureza são partes de um mesmo todo. Destruir a natureza é destruir o homem, destruir a vida. Da mesma forma que não se faz proteção ambiental sem proteger o ser humano, principalmente os mais fracos e vulneráveis. É tudo uma coisa só.

O dinheiro não foi inventado por Deus. Isso fica bem claro na resposta dada por Jesus, na conhecida pegadinha: de quem é o rosto que está na efígie? Era de César, ora, uma invenção humana. Surgiu pra facilitar o comércio, acabou sendo erigido em divindade. Um deus cruel ao qual se sacrificam pessoas e bens. E o mais louco de tudo é que seu valor é determinado por sacerdotes desonestos e malvados que criam e destroem bilhões a um clique de computador. Se você acha que bezos e lemanns ficam bilionários por trabalho, mérito ou sorte, você é um trouxa, como bem o classificou o ministro Paulo Guedes. E é a essa divindade que estamos sacrificando o presente e comprometendo o futuro. Vamos pensar nisso?

A pandemia do covid-19 alerta para a insanidade do caminho que estamos trilhando. Toda empáfia de uma civilização afluente jogada por terra por um vírus microscópico. De nada adiantam os quaquilhões de dólares investidos em armamentos, os sofisticados mercados financeiros, os suntuosos templos de consumo, os eletrônicos de última geração. A solução é parar tudo, ficar em casa, interromper a disseminação do vírus. E repensar a vida, a economia, a sociedade. Um bom roteiro é conhecer o teor da encíclica Laudato si e se engajar na recuperação da nossa casa comum. Não precisa ser católico, cristão, ou professar qualquer crença. Basta ser gente.

Olha pro Céu

Junho. As chuvas se afastam, resumidas a algumas esparsas, pra apagar fogueira, tradição do mês. Hora de celebrar o resultado do inverno e enfrentar o verão que se aproxima com coração cheio e alma leve.

Milho assado, canjica, mucunzá, cuscuz, que o tempo é de fartura. Fogueira no terreiro pra homenagear Santo Antônio, São João, São Pedro, parceiros fiéis. Aluá, quentão, o fole roncando e o forró comendo solto. Sem faltar a roupa de chita e a disputa pra ver quem é o melhor na dança da quadrilha. Mês animado, de noites frias e céu risonho.

A tradição acabou virando meio de vida e cidades disputam quem tem o melhor São João do nordeste. Isso acaba sacrificando a espontaneidade da festa aos interesses comerciais. No momento atual há toda uma cadeia prejudicada com as normas de isolamento ditadas por conta do combate ao Covid19. Se tivermos juízo, retornaremos à disputa.

Mas o melhor São João de todos é aquele feito por milhares de brincantes, espalhados por todo o Brasil, que a cada ano reinventam a festa, mantendo-a viva no coração e mente de todos. Que no momento estão se cuidando, pra vir com tudo quando as ameaças que nos afligem forem coisa do passado e tenham nos deixado lições. É nisso que acredito.