Uma paixão chamada cinema

1968 marcou uma guinada em minha vida. Desde 1964, quando li Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, de Glauber Rocha, passei a encarar o cinema com outros olhos. Sem deixar de lado as sessões de sábado à tarde do São Luís, onde o que menos importava era o filme, passei a frequentar o Clube de Cinema de Fortaleza e conheci Eusélio Oliveira, da Federação Norte Nordeste de Cineclubes, que me chamou pra ajudá-lo a fazer a Jornada Nacional de Cineclubes, em Fortaleza, em 1967. A bem da verdade o cinema entrou na minha vida na mais tenra infância, vendo filmes no cinema de Piracuruca, quando criamos, os irmãos, um sistema de projeção com bonecos de cera, lamparina e um bulbo de lâmpada cheio d’água fazendo as vezes de lente e projetando sombras numa tela feita de uma cueca de samba canção aposentada. Fez sucesso, em Piracuruca e na Fazenda São Joaquim, onde praticamos. Donde o cursinho de férias na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, em janeiro de 1968, acabou virando o curso regular de 4 anos, deixando para trás o curso de Economia da UFC, o estágio no ETENE/BNB e a perspectiva de carreira profissional tradicional.

Já conhecia Belo Horizonte, mas a gente mora na cidade e não nos pontos turìsticos. Tinha os parentes e a escola era pequena, fácil enturmar ali. Já o ambiente cinematográfico era mais brabo, com uma pinimba entre a ESC-UCMG e o CEC – Centro de Estudos Cinematográficos, importante cineclube de BH, com história de peso. Nos bares da vida e na imprensa a Escola de Cinema era bastante menosprezada. Fácil não, para um estrangeiro e cearense ainda por cima. Mas naquele ano tudo parecia possível. O Festival JB/Mesbla de Cinema Amador, lançado em 1965, entrava em sua IV edição cheio de prestígio e os alunos da escola de cinema prometiam comparecer em peso. Um amigo, colega de turma, me convida para ser diretor de produção do filme que ele ia fazer. Diretor de produção é aquele que dá um jeito pra tornar possível todas as ideias do diretor, inclusive que a celebridade do momento faça uma ponta no filme, sem contrapartida real.

Dada a largada, fomos à luta. No andar da carruagem, outros colegas me pedem pra quebrar um galho aqui e ali, feito sem prejuízo de nosso filme. O clima vai esquentando e espalho nos bares que naquele ano ia ter prêmio pra filme da escola de cinema. Ousada provocação. O grande desafio, entretanto, era a pós-produção, feita toda ela fora de BH. Embora todas as redações de RJ e SP estivessem cheias de mineiros, os que ficaram na província não tinham a menor disposição de procurar estes centros. Cenário perfeito para um cearense nadar de braçada. De quebra, entro em contato com a mineirada morando no Rio, recebendo aval de mineiridade. Prazos encurtando que laboratórios, estúdios, moviolas estão lotados com demandas de todo Brasil. Mas entregamos a tempo todos os nossos filmes. Agora é aguardar o Festival e ver o que acontece.

Que pro nosso filme foi melhor que a encomenda. Menção honrosa. Prêmio Rádio JB e na capa do Caderno B do JB, crítica de página inteira assinada por Maurício Gomes Leite, egresso do CEC e respeitado pelos círculos cinematográficos de BH. O filme era Morte Branca, de José Américo Ribeiro, disponível aqui. Pra mim o alívio de não ser cobrado das bravatas, pro Zé Américo o reconhecimento de seu talento e amor pelo cinema, demonstrados ao longo de sua trajetória, na ESC/UCMG e depois na UFMG. O título deste post é roubado do título de seu livro póstumo. Trabalhamos juntos ainda alguns anos na escola e na IMAGEM – Cooperativa de Trabalho dos Profissionais de Cinema de Belo Horizonte, uma tentativa de profissionalizar a produção cinematográfica nas Alterosas. Considerando que na época toda cooperativa tinha de se registrar no Ministério da Agricultura, e que cooperativismo sempre foi olhado com olho torto no país, a Imagem não teve vida longa.

1968 foi um ano em que pensamos que podíamos tudo. Muita coisa até hoje discutida, estava na rua e a gente achava que ia mudar o mundo. A reação foi brutal. Nos 2 lados da cortina de ferro, Oropa, França e Bahia. Só mesmo os vietcongues conseguiram seu objetivo. Aqui no Brasil, depois de um ano antenado com o mundo, com hapenings, passeatas, repressão policial, festivais de cinema, de canções, o ano termina com a decretação de ditadura. Anos pesados, Amigos sumindo, Medo de tudo, Gritos de ordem, Incerteza, terror.

Olhando hoje, parece que não aprendemos nada. Na real, a reação aprendeu tudo e esmaga qualquer veleidade de mudança do status quo. De preferência utilizando o medo do explorado.

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