
A primeira vez que visitei Fortaleza, nos 1950 e tantos, tive certeza que aquela era a cidade onde eu queria viver. A primeira imagem que me fisgou foi exatamente essa aí, entre as duas pontes, me deixando totalmente hipnotizado. Morava no interior do Piauí, Piracuruca, e já conhecera o mar em Amarração e vira a maior quantidade de água que já vi na vida na Baia de Guajará, em Belém do Pará. Mas aquele balanço e aquele som nunca. Já dominava o nadar em açudes e rios do sertão no inverno. Dediquei, então, os poucos dias que passei em Fortaleza naquela ocasião a aprender a nadar naquelas águas. Anos mais tarde, já morando na cidade, complementei o nadar com os pulos da ponte naquele marzão de meu Deus.


Em 1961 voltei a Fortaleza para estudar no Seminário da Prainha. Pontificado de João XXIII e muita gente hoje nem de longe imagina o que isso significa. Internato, só em ocasiões especiais como a Semana Santa contato com a cidade. Procissão na Dom Manuel, cerimônias no Pequeno Grande, que a catedral metropolitana estava em construção. E foi cenário de minha única incursão pela tv, numa encenação da Paixão de Cristo, em que Emiliano Queiroz era o Próprio, Renato Aragão, um soldado romano e euzinho, o moleque que trazia os cravos numa cestinha. Transmitida ao vivo pela TV Ceará, sem gravação. Frustrada a carreira artística, 2 alegrias como torcedor: o bicampeonato mundial de futebol no Chile e a seleção do Ceará chegando na semifinal do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, ambos em 1962.


Em 1964 largo o seminário e adentro Fortaleza, vivendo o que a cidade tinha a oferecer. As sessões de cinema dos sábados à tarde no São Luís (rapazes de paletó), onde o que menos importava era o filme. As praias, começando pelos pulos na ponte metálica, braçadas vigorosas na enseada do Mucuripe onde as jangadas fundeavam, incursões na Praia do Futuro, que começava no Chez Pierre e terminava no Caça e Pesca e não era frequentada por moças de família. A passagem das normalistas pela ventania da Rua do Ouvidor, segurando a saia se do interior ou os cabelos se da capital. Noitadas de discussões intelectuais na coluna da hora. Cinema levado a sério no Clube de Cinema de Fortaleza. Encontro com Eusélio Oliveira, amizade sólida e muito trabalho pra fazer a Jornada Nacional de Cineclubes em julho de 1967, sucesso total. Cursar o científico, passar no vestibular. Contato com o movimento estudantil secundarista. Repressão violenta e brutal de uma ditadura que se dizia branda mas não hesitava em mostrar as garras. Foram 4 anos vividos com muita entrega e intensidade, com o cinema cada vez mais virando o principal interesse – uma câmara na mão, uma ideia na cabeça – que no último dia de 1967 fui pra Belo Horizonte fazer um curso de iniciação ao cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais (nada de PUC), que logo virou um curso regular de 4 anos e me fez largar a Economia, na UFC, o estágio no ETENE, do BNB e a cidade de Fortaleza.


Num dado momento, terminado o curso em Belzonte, imaginei a volta, animado com o incentivo de amigos. Porém, época medicilenta, as forças de segurança olharam com desconfiança aquele fotógrafo cabeludo que falava coisas estranhas e subversivas como profundidade de campo (ou de foco). Numa madrugada, voltando da Praia do Futuro, foi sequestrado e jogado numa cela da PF, incomunicável, pra responder intermináveis e fantasiosos interrogatórios. Acho que aí morreu a possibilidade de viver na cidade, como pensado nos anos 1950…
Voltei pro Ceará 25 anos depois com outra perspectiva. Fui para o interior, trabalhar na roça, retornando às origens. Fortaleza me toca muito ainda e não é apenas um retrato na parede. Tenho filho morando lá, irmãos, parentes e lembranças. Como as suscitadas pela comemoração de seus 300 anos, comemorados na segunda feira, 13 de abril. E sempre será parte de minha vida. Celebremos pois os 300 ANOS!

