A tela tá lá

No final dos 1960, abandonei meu curso de economia na UFC e me matriculei na Escola Superior de Cinema, da Universidade Católica de Minas Gerais (ainda não chamava PUC), decisão radical e ousada. O cinema entrou na minha vida desde a mais tenra infância, quando assistia religiosamente todas as sessões do cinema de Piracuruca. Não satisfeitos com as aventuras vistas na tela, bolamos, os 3 irmãos, um sistema de projeção que envolvia bonecos de cera de carnaúba, projetados numa tela feita a partir de uma cueca branca desativada, tendo como fonte de luz uma lamparina e como lente um bulbo transparente de lâmpada cheio de água. Fez sucesso.

Passada a surpresa inicial, papai tenta entender o que faz um jovem largar uma profissão que começava a entrar na moda por outra que nunca mereceu o devido respeito pela sociedade brasileira. Acho que partiu sem saber a resposta. Mas apoiou o filho sem cobrança ou ressalva. Anos mais tarde, quando o curso levou o filho a ganhar a vida como fotógrafo, quando documentou praticamente todas as obras do ‘milagre econômico‘. Da BR 174 ao porto de Rio Grande, da BR 101 a Itaipu, 10 anos seguidos pendurado num avião. Nas ocasiões em que podia passar em casa trazia montes de slides dessas andanças. Papai e os 2 irmãos idealizam então esta tela no quintal, apta para projeções na horizontal ou vertical. E tá lá há mais de 40 anos.

Hoje apenas uma tela na parede.

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