Doutor Dak

O único dos 3 irmãos a não nascer em Parnaíba, encarava uma corda de caranguejo do Privat. na barraca de Dona Mazé, como se nativo fosse. Da mesma forma que posava com uma cerveja, no melhor estilo Zeca Pagodinho. “– Muito prazer, Anderson Clayton!

Mas desorientava mesmo quando via uma coisa do seu sertão, como um juazeiro. Afinal, foi no sertão mais sertão que viu a luz pela primeira vez e foi ele personagem central de 2 livros seus, pois apesar de ser o menos intelectual da família é o único que deixou escrito o que viu, sentiu e viveu.

Os livros – O NORDESTE QUE EU CONHEÇO e MINHA TERRA, EU  …E OS OUTROS – trazem uma descrição singela e real do Nordeste e suponho que respondiam às observações sem noção feitas pela mineirada. Até compreensível naquela época em que as comunicações eram difíceis. Embora o autor já morasse há 12 anos em Belzonte, passava todas as férias no Ceará, onde era considerado um legítimo cabeça chata, o sucessor do Dr Ariolino. E voltava cheio das novidades. Ele deu seu recado. Anos depois, engenheiro formado e com irmã fotógrafa de mão cheia, veio com ela pra botar tudo aquilo em imagens. O triste é ver hoje, passados 62 anos, com comunicação em tempo real, um determinado grupo com tanto preconceito e ódio contra o Nordeste e os nordestinos.

Se pra escrever ele chamou o Joaquim Jorge, nos canteiros de obra das diversas construtoras onde trabalhou, se consagrou entre a peãozada como doutor Dak, um engenheiro que não tinha bondade. (Parênteses: onde Dak nasceu, não ter bondade quer dizer que a pessoa não arrota superioridade). A começar por adotar o apelido que vem desde criança. Alguns fiscais de vida alheia sugeriam que ele se comportasse mais como executivo, menos como peão. A construtora onde trabalhava o escolheu para a equipe de executivos que foram assumir o controle de empresa comprada em Portugal. Competência nunca lhe faltou. Se seu cargo sumiu é porque os jênios do liberalismo acreditam que empreendedorismo é fazer engenheiro gabaritado se tornar motorista de uber. (e acharam um monte de besta pra acreditar nisso)

Outra faceta do Dak é o amor e cuidado com passarinhos. Que começou criando exemplares selecionados em gaiolas e evoluiu para viveiros espetaculares nos canteiros de obra onde trabalhou e uma consciência preservacionista desenvolvida pela amizade com Roberto Azevedo.

Zoadento e gritador talvez assustasse quem o visse pela primeira vez. Mas era puro coração, devotado de quatro pés à familia e peça fundamental na animação de reuniões e festas. Sem dúvida, sempre quis manter a imagem conquistada na recepção da família, quando estrilara em alto e bom som “-eu não sou de beijo, não!”

Chegam as datas, acende a memória.

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