água pra mim tem cabelo

Era o bordão repetido pela moleca magrela e atrevida para as companheiras mais velhas, preocupadas com sua afoiteza nos banhos de rio e açude, no cotidiano da vida na roça. E foi assim, com determinação, coragem, ousadia e bom humor, que ela traçou seu caminho na vida, fazendo tranças no cabelo da água.

Vida plena de desafio e aventura, acompanhando o marido pelos sertões do Piauí e Ceará, deixando o conforto da família. Para ela, correr riscos era parte do processo de atingir os objetivos definidos. Juízo demais é trambolho, repetia bem humorada. E registra, cuidadosamente, os gastos diários, num peculiar modelo: em linha, com os itens descritos em sequência e o valor anotado acima. Praticava o recomendado, hoje, pelos consultores de finanças, que abundam no séc. XXI. Com certeza, no fim do mês, fazia o fechamento com o marido, escrivão da Coletoria Federal do Ministério da Fazenda e planejava o futuro. Com os olhos na garantia da educação dos filhos perto dela.

Adorava os filhos, embora não gostasse de criança, sempre ressaltando que não eram crianças, eram seus filhos. Três filhos homens, pra desconsolo de Abigail, a tia Biga, que previa futuro solitário pra irmã sem uma filha. Soube lidar com alterações ao seu desenho, ao ver a intenção dos filhos de ingressar no seminário. Católica fervorosa, trocou a privação da presença deles pela perspectiva de ter um filho padre, dádiva divina. Não deu. De novo com os filhos em casa acompanhou-os, carinhosamente, até à idade em que cada um tomou seu caminho.

Nunca falou o manjado ‘vou falar com teu pai pra ele tomar as providências’. Caso necessário ela mesmo as tomava com firmeza, autoridade e respaldo. Nenhum filho, médico, advogado ou engenheiro, tradicionais profissões da época (nem economista, que começava a ter valor). Ela forneceu régua, compasso e valores, mas cada um escolheu seu rumo, sem imposição. Não fugia de dar conselho, não economizava oração, não sonegava amor. Retribuído, pelo visto. Ao fim da festa de 50 anos de casada, manda um recado pela sobrinha: ‘diga à Biga que nunca senti falta de uma filha mulher’. Uma alegria saber disso. Isenção de mãe não conhece limite.

Inesquecível Zuite.

Mãe só tem uma

Neste dia das mães pululam nas redes sociais as homenagens dos filhos às suas genitoras, exaltando de forma irrefutável, as características únicas e comuns a cada uma delas. Não fujo da regra e ouso dizer que minha mãe possuía todas as qualidades apontadas em grau absolutamente superior. Deve ser isso amor filial.


Dos álbuns da família vem esta foto que pra mim traduz bem o espírito que minha mãe carregou ao longo da vida. Sempre em dia com seu tempo, administrando de forma admirável o roteiro que traçou para sua vida, desde a mais tenra infância, quando ficou órfã de mãe e foi criada na casa dos avós.

Zuite sempre soube o que queria. E foi com determinação, coragem e bom senso que trilhou seu caminho, tendo como norte o desenvolvimento integral de sua família, construída com muito amor e carinho.

Foi uma vida plena de peripécias, repleta de emoções, descobertas, onde a mesmice não tinha lugar. Algumas frases deixaram marcas, “água pra mim tem cabelo”, para se gabar das habilidades de nadadora; “mais cru comeu a onça”, refutando reclamações sobre o ponto da carne; “juízo demais é trambolho”, sobre o óbvio.

Zuite soube estar presente e atuante na vida de nós todos sem oprimir ou desrespeitar ninguém. Transmitiu princípios e valores, que se fazem presentes e persistirão pela geração futura. Sou um abençoado e sei disso.