No meio do caminho

tinha uma pedra

Pense na balbúrdia. Exímio provocador, Drummond afronta os cânones da poesia tradicional e os limites impostos pela gramática. “Reacionários e gramatiqueiros”, os críticos vieram com quatro pedras na mão. Fino gozador, o poeta devolve a agressão quarenta anos depois, com o livro Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um Poema, reunindo, ironicamente, o publicado sobre o ‘poeminha da pedra’, Triste constatar, no entanto, que prolifera ainda hoje a mesma mentalidade tacanha, estulta e atrasada. Só que multiplicada por mil, nas redes sociais da internet.

Pedra lembra firmeza, solidez, segurança, monumento. Religiões a usam em altares, templos, memoriais, desde sempre. A Bíblia fala que Deus escreveu seus mandamentos na pedra pra mostrar sua permanência através dos tempos. Verdade que no primeiro embate entre a Lei de Deus e o dinheiro, Moisés teve de quebrar as tábuas da lei e foi obrigado a pegar uma segunda via. E o dinheiro se sentiu confiante para quebrar qualquer pedra que lhe trouxesse ganho, deixando crateras e rejeitos.

Uma pedra no meio do caminho nem sempre é apenas o obstáculo que nos querem fazer ver os desavisados. Pode ser um desafio, um convite à aventura, um atalho para a fama. Ou mesmo, um monumento, um marco da estrada ou só mesmo a quebra na monotonia da paisagem. Pedras estão espalhadas por esse mundão afora com várias leituras e significados. Brotam do chão, mantêm os rios nas calhas ou os fazem despencar em cachoeiras.

Divido minha vida, há meio século, com uma mulher linda sensível e bem resolvida, que tem verdadeira paixão por pedras. Não daquelas famosas, de nome e sobrenome, mas das pé duro que se espalham pelo sertão afora, empilhadas ao acaso sendo esculpidas pela ação do sol, do vento, da água. Sempre que dá estamos curtindo-as em nossas andanças. Vem de tempo. Quando começamos a namorar, elas eram nosso trampolim pra pular nos rios e açudes.

O ‘poeminha’ de Drummond tornou-se pedra angular da poesia modernista. Tudo que foi dito para desmerecê-lo esvaneceu no tempo. E ele chegou até nós, inteiro em sua simplicidade.

tinha uma pedra no meio do caminho

Rima rastêra

Certa ocasião, uma amiga comentou com ar de enfado – o pessoal do Nordeste gosta de falar em versos. Antonio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, num diálogo com um poeta urbano, letrado, fala – Pra toda parte que eu óio/Vejo um verso se bulí. O povo do Nordeste gosta mesmo de uma rima. E constrói uma bela narrativa de sua vida e de sua história em versos simples e poderosos. O citado Patativa do Assaré é o exemplo. Nunca tive tal engenho e arte, restando-me a admiração e saudável inveja.

Minha vida profissional me obrigou sempre a andar por variadas paragens deste Brasil e um dia chego a Monteiro, na Paraíba. Incrível cidade, de sol forte e claro, casario bem cuidado, largas ruas e avenidas no paralelepípedo feito no capricho, sem uma gota de asfalto. Sem dúvida a cidade para abrigar a Pousado dos Poemas, escritos no muro e na recepção e apartamentos.

Mas o mundo é grande e o sertão é maior, já se disse e o caminho traz surpresas, revelando que a falta de versos prejudica a mensagem, por mais relevante que seja o tema.

A vida continua e a gente acaba chegando a São José do Egito, em Pernambuco, modestamente autointitulada de Berço Imortal da Poesia. O que realmente me impressionou na cidade é que os motoqueiros usavam capacete. Acabei registrando os muros.

Por certo a rima não é a solução. Mas a vida em versos tem outro sabor.