Rima rastêra

Certa ocasião, uma amiga comentou com ar de enfado – o pessoal do Nordeste gosta de falar em versos. Antonio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, num diálogo com um poeta urbano, letrado, fala – Pra toda parte que eu óio/Vejo um verso se bulí. O povo do Nordeste gosta mesmo de uma rima. E constrói uma bela narrativa de sua vida e de sua história em versos simples e poderosos. O citado Patativa do Assaré é o exemplo. Nunca tive tal engenho e arte, restando-me a admiração e saudável inveja.

Minha vida profissional me obrigou sempre a andar por variadas paragens deste Brasil e um dia chego a Monteiro, na Paraíba. Incrível cidade, de sol forte e claro, casario bem cuidado, largas ruas e avenidas no paralelepípedo feito no capricho, sem uma gota de asfalto. Sem dúvida a cidade para abrigar a Pousado dos Poemas, escritos no muro e na recepção e apartamentos.

Mas o mundo é grande e o sertão é maior, já se disse e o caminho traz surpresas, revelando que a falta de versos prejudica a mensagem, por mais relevante que seja o tema.

A vida continua e a gente acaba chegando a São José do Egito, em Pernambuco, modestamente autointitulada de Berço Imortal da Poesia. O que realmente me impressionou na cidade é que os motoqueiros usavam capacete. Acabei registrando os muros.

Por certo a rima não é a solução. Mas a vida em versos tem outro sabor.

Monumental.

É o termo que melhor define esta obra. Construída em alvenaria de pedra, em arco romano, coroada com cerâmica portuguesa, guarda corpo trabalhado em ferro vindo da Inglaterra e pilares em cantaria, perfeitamente integrada com a serraria que o contorna, com dois portentosos inselbergs como ombreiras, encanta a visão de quem a visita. Foi tombada pelo IPHAN e é uma das atrações turísticas de Quixadá.

A construção do açude prometia resolver de forma definitiva os problemas causados pelas secas no Nordeste (na época se dizia Norte). Inaugurou o ciclo de obras contra a seca, hoje contando com centenas de açudes. E a seca? Fenômeno climático periódico, acima das ordens e interesses dos governantes, continua a ser uma calamidade para a maioria dos sertanejos e oportunidade de ganhos para os poucos que vivem de sua indústria.

Sem um projeto de Nação, as grandes obras serão apenas monumentos megalomaníacos, incapazes de proporcionar os benefícios prometidos em sua concepção. Euclides da Cunha captou isso na campanha de Canudos. Diferentes sugestões foram apresentadas na época para enfrentar o problema. Adotadas em conjunto ofereciam a oportunidade de minorar e prevenir as calamidades presentes e futuras. Optou-se pela solução única e definitiva, a bala de prata: uma grande obra. Até parece o Brasil atual que acredita em panaceias universais e salvadores da pátria.

O caminho é o acesso à terra e à água. André Rebouças, engenheiro que visitou as regiões atingidas pela seca de 1877, recomendou a distribuição de lotes aos sertanejos, enquanto se faziam açudes, cisternas, poços, “estabelecendo as bases para reconquistar o sertão”. A seca é um fenômeno natural, a cerca, invenção do homem. A primeira, periódica, a outra, perene. Experiências de convivência com o semiárido, com tecnologias simples, de baixo custo, acessíveis a muitos e com resultados palpáveis, dão razão a Rebouças.

Seria, então, o açude do Cedro monumental e inútil, como disse Euclides da Cunha? Longe disso. Ele mesmo reconhece seu valor local como inapreciável. Majestoso e belo, aguarda sua visita. De quebra você será brindado com a magnífica paisagem de Quixadá, repleta de inselbergs e monólitos (ou monolitos). Com disposição, vá até Banabuiu pra conhecer outro açude. Se achar que tem pouca água saiba que tem mais a ver com a ação do homem que com fenômenos naturais. A Natureza age em perfeita integração. Aprenda com ela e valorize a vida.