
E pro tira gosto também. Tremoço, batatinha frita, macaxeira frita, torresminho, e por aí vai o agricultor tem que estar presente. Até pro feijão com arroz. Você pode passar tempos sem precisar de um médico, de um advogado, de um engenheiro, mas de um agricultor você vai precisar todo dia. Apesar do que, é atividade nada valorizada pela sociedade.
Agricultor: o que cultiva a terra. O que domesticou os vegetais para garantir a segurança alimentar dos humanos, conforme a vocação de cada região do planeta, permitindo largar a vida nômade de coletor e caçador. Revolução, que se chama. Depois, as descobertas do agricultor foram sistematizadas nas escolas e surgiram os técnicos, que divulgavam as melhores práticas. Primeiro, como extensão rural, em seguida, como receita e hoje como um produto. Considerar o agricultor ignorante passou a ser a norma.


No Brasil, a vida do agricultor não tem sido fácil desde o primeiro momento da colonização. País essencialmente agrícola, cujo nome deriva de árvore (hoje praticamente extinta), priorizou desde sempre culturas para exportação, com a terra garantida a fidalgos por decretos régios ou bulas papais. Ao agricultor eram concedidas áreas não apropriadas para o cultivo de cana de açúcar, com a obrigação de produzir alimentos, sem nenhuma garantia de posse.
Tivemos 2 momentos emblemáticos para encarar a questão. Em 1850, quando se fez a Lei de Terras, que em vez de garantir terra pra quem trabalha, sacramentou o latifúndio. E em 1964, quando os militares golpistas reconheceram a gravidade da situação agrária e promulgaram o Estatuto da Terra. Mesmo dispondo de plenos poderes, os militares não tiveram peito para implementá-lo, optando por uma modernização conservadora, com nada de modernização e tudo de conservadora.


No atual sistema agroindustrial, o agricultor é o último elo da cadeia quando compra um insumo e o primeiro elo da cadeia quando vende seu produto. Não tem qualquer possibilidade de influenciar o preço de compra ou venda de sua atividade, como os desavisados botam nas redes sociais e que me levou a escrever estas linhas.


E que me levou a um exercício de futurologia reversa. Se em 1850, tivesse sido feita a Reforma Agrária, como o momento exigia e os abolicionistas recomendavam, possivelmente Lula não teria sido obrigado a emigrar e fosse hoje um feliz e bem sucedido agricultor, já que a agricultura é a arte do cuidado e nisso o cabra é bom. E teríamos uma sociedade bem mais evoluída e mais justa, com Mauá fazendo a industrialização no momento certo e o Rio Grande do Sul não estaria debaixo d’água, desastre anunciado e agravado pelos mesmos que um dia acabaram com o pau brasil e prosseguiram destruindo Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Amazônia e Pampa.
