O caminho se faz ao pedalar.

Rafaela Asprino e Antonio Olinto, cicloturistas de muitas léguas, estiveram em meados de agosto em Fortaleza para o lançamento de seu mais recente guia de cicloturismo – Serra do Espinhaço. Foram dois ótimos bate-papos, reunindo os aficionados, numa troca de ideias, informações e emoções. Com muita simplicidade, sem fórmulas ou receitas, muitos caminhos foram trilhados e memórias arrancadas do fundo do baú.

Minha primeira bicicleta, de segunda mão, foi presente de aniversário. Pequena, mas sem aquelas rodinhas ridículas para aprendiz, me causou tremenda excitação. Só fui dormir quando aprendi a pedalar, me equilibrar, fazer curva e usar os freios, num dia intenso de treinamento. Logo, estava me exibindo pela cidade, fazendo estrepolias com destemor e presunção. Num instante surgiram amigos para explorarmos juntos tudo o que os arredores de Piracuruca tinham de interessante.

Em pouco tempo, estávamos os três irmãos devidamente equipados, com bicicletas Monark, Guliver, ficando a já citada para o caçula. Abriam-se as porteiras de um novo mundo. Mesmo sem marcha, a gente chegava aonde não dava pra ir a pé, nos caminhos pueris e lamurientos de Piracuruca, Senador Pompeu e Cascavel. Sabíamos das histórias do Baptista, nosso pai, ciclista de mão cheia, que vencia léguas no pedal procurando um bom arrasta-pé, em seu tempo de solteiro. E vimos muitas vezes o Zé Cesário vencer a distância da Caiçara ao Ipuzinho, com a bicicleta carregada, coisa de duzentos quilômetros, num único dia. Dava pra pensar longe, mas a vida tomou outro rumo.

Transporte individual por excelência, tem uns que exageram na criatividade, para chamar a atenção. Já os artistas propõem a reflexão, como nesta instalação de Weiwei.

É o meio de transporte mais utilizado no mundo e aqui no Brasil está presente na cidade e no campo, para trabalho, transporte ou lazer. No entanto, alguns cultivam profunda birra pela bicicleta. Será pela liberdade do ciclista traçar seu próprio caminho, ditar seu próprio ritmo, conhecer a si mesmo? A sociedade, apesar de egoísta e individualista, se sente mais confortável com o comportamento de manada.

O barato do cicloturismo é que não é uma competição. É uma experiência que cada um faz por prazer, dentro do ritmo e possibilidades individuais. O instigador papo entre Olinto, Rafaela e os cicloturistas desperta a vontade de montar na bichinha logo cedo e ganhar o mundo. O condicionamento físico, depois de meio século sem pedalar, grita ser isso ousada travessura. Portanto, viajar só na imaginação, ou melhor, acompanhar as viagens do filho, cicloturista ativo, que dá sequência às aventuras do pai e do avô, com muito amor, zelo e competência. E constatar que, desde os 1930, sempre tem um da família achando no pedal o caminho da felicidade. Uma noite mágica, de verdade.

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