Vasto mundo

De mala pronta pra visitar filhos, parentes e amigos em Belzonte, cidade onde vivi momentos memoráveis. Mala pequena e leve, atendendo à política de bagagens das companhias aéreas, sem lugar pra lembrancinhas ou presentes. Fazer o que? – dizia o Zé Chagas.

Cheguei na cidade no réveillon de 1968, para passar um mês, que virou 25 anos. Já tinham cortado os benjamins da Avenida Afonso Pena, ocupado com construções um tanto do Parque Municipal e as praças eram cruzamentos de avenidas. Prenúncio de quem ia comandar a expansão da cidade. Que cresceu horrores para o lado e para cima, desde então. Mas preserva precário o sistema de transporte coletivo, embora as tarifas façam a festa dos empresários do setor.

No mundo, Era de Aquarius. No Brasil, Anos de Chumbo. Sem internet, a juventude se conectava na construção de um mundo de paz e amor. Make love, not war. Valores compartilhados com generosidade e ousadia. Cheio de sonhos, vivia o presente.

Esta viagem tem uma razão determinada. Sem dúvida, vou redescobrir a cidade conhecida, escondida atrás dos ícones contemporâneos. Rever lugares, encontrar amigos. Abraços, um café, um chopp, pão de queijo com linguiça, fígado com jiló. Conversa jogada fora (ou dentro?). E, logo, voltar pra roça, que cidade grande é lugar de quem quer viver isolado. Mundo mundo vasto mundo.

O tempo voa

Neste mês de fevereiro de 2020, fazem exatos 10 anos que realizei o desejo de muita gente da classe média brasileira: uma visita à Europa. Não exatamente uma viagem de turismo, antes, uma missão. Missão técnica para visitar a Biofach, a maior feira de orgânicos do mundo. Por uma das artimanhas do destino lá estava eu, único agricultor, junto aos técnicos do SEBRAE, participando do evento. Uma experiência incrível, tanto no aspecto pessoal quanto profissional.

Orgânicos do mundo inteiro: Oropa, França e Bahia. O mundo é grande, mas a feira é maior. Enquanto os técnicos se encantavam com os números do segmento diante da crise de 2008 das economias desenvolvidas, eu exercitava a mímica e o inglês macarrônico na conversa com agricultores da Grécia, México, Índia, Espanha, etc. Facilitada pelo fato de termos uma linguagem e práticas comuns há cerca de 10.000 anos. E é aí que a gente vê o significado da fala da diretora do IFOAM, Louise Luttikholt, por ocasião da Biofach 2020: “Organic isn-t a niche – it’s a promise for the future”.

Esse papo de nicho é coisa das redes varejistas pra manter o alimento orgânico fora do alcance da maioria da população. Contam com a ajuda da mídia, incapaz de produzir uma matéria decente sobre o tema, mas com generoso espaço pros chicograçianos da vida demonstrarem toda sua ignorância e preconceito. Na real, o homem adota a produção orgânica, em comunhão com a natureza, desde que se tornou agricultor, há milênios. Ao esquecer disso, enfrentou crises.

Segue a viagem, no meio da neve, que inviabiliza a agricultura parte do ano, tal qual a seca no Nordeste. E eles não têm nenhum programa de obras contra a neve. Esclarecedor. Há tempos, fizeram a reforma agrária. No domingo, uma folga pra explorar Nuremberg, com direito a museus, muralhas medievais e a sua famosa salsicha, do tamanho do dedo mindinho. Depois, visitas a fazendas biodinâmicas, distribuidora de cestas orgânicas e supermercados dedicados ao setor. E enriquecedores bate-papos com os técnicos do SEBRAE, comprometidos com o que fazem. Nos trilhos, correm bondes e trens, compartilhando espaço, numa boa, com carros e pedestres e os ônibus não têm degraus, nem catracas.

10 anos atrás, o Brasil era admirado e respeitado no mundo inteiro. O brasileiro, conhecido pela sua alegria, irreverência e descontração. Usar a bandeira colada na mochila ou manga da camisa era motivo de orgulho, não de vergonha. E a gente acreditava que o planeta receberia o devido cuidado, pelos seus moradores. Não havia hordas, nas redes sociais, ainda incipientes, pregando o retorno à Idade Média, crentes que estão prolongando a vida, quando só aceleram a morte.

Não visitei lojas. Tava liso.

O caminho se faz ao pedalar.

Rafaela Asprino e Antonio Olinto, cicloturistas de muitas léguas, estiveram em meados de agosto em Fortaleza para o lançamento de seu mais recente guia de cicloturismo – Serra do Espinhaço. Foram dois ótimos bate-papos, reunindo os aficionados, numa troca de ideias, informações e emoções. Com muita simplicidade, sem fórmulas ou receitas, muitos caminhos foram trilhados e memórias arrancadas do fundo do baú.

Minha primeira bicicleta, de segunda mão, foi presente de aniversário. Pequena, mas sem aquelas rodinhas ridículas para aprendiz, me causou tremenda excitação. Só fui dormir quando aprendi a pedalar, me equilibrar, fazer curva e usar os freios, num dia intenso de treinamento. Logo, estava me exibindo pela cidade, fazendo estrepolias com destemor e presunção. Num instante surgiram amigos para explorarmos juntos tudo o que os arredores de Piracuruca tinham de interessante.

Em pouco tempo, estávamos os três irmãos devidamente equipados, com bicicletas Monark, Guliver, ficando a já citada para o caçula. Abriam-se as porteiras de um novo mundo. Mesmo sem marcha, a gente chegava aonde não dava pra ir a pé, nos caminhos pueris e lamurientos de Piracuruca, Senador Pompeu e Cascavel. Sabíamos das histórias do Baptista, nosso pai, ciclista de mão cheia, que vencia léguas no pedal procurando um bom arrasta-pé, em seu tempo de solteiro. E vimos muitas vezes o Zé Cesário vencer a distância da Caiçara ao Ipuzinho, com a bicicleta carregada, coisa de duzentos quilômetros, num único dia. Dava pra pensar longe, mas a vida tomou outro rumo.

Transporte individual por excelência, tem uns que exageram na criatividade, para chamar a atenção. Já os artistas propõem a reflexão, como nesta instalação de Weiwei.

É o meio de transporte mais utilizado no mundo e aqui no Brasil está presente na cidade e no campo, para trabalho, transporte ou lazer. No entanto, alguns cultivam profunda birra pela bicicleta. Será pela liberdade do ciclista traçar seu próprio caminho, ditar seu próprio ritmo, conhecer a si mesmo? A sociedade, apesar de egoísta e individualista, se sente mais confortável com o comportamento de manada.

O barato do cicloturismo é que não é uma competição. É uma experiência que cada um faz por prazer, dentro do ritmo e possibilidades individuais. O instigador papo entre Olinto, Rafaela e os cicloturistas desperta a vontade de montar na bichinha logo cedo e ganhar o mundo. O condicionamento físico, depois de meio século sem pedalar, grita ser isso ousada travessura. Portanto, viajar só na imaginação, ou melhor, acompanhar as viagens do filho, cicloturista ativo, que dá sequência às aventuras do pai e do avô, com muito amor, zelo e competência. E constatar que, desde os 1930, sempre tem um da família achando no pedal o caminho da felicidade. Uma noite mágica, de verdade.

Pé na estrada

Vem do berço o hábito de viajar. Natural, portanto, que Rosa e eu tenhamos colocado os pimpolhos na estrada tão logo surgiram as oportunidades. Talvez uma inconsciente volta à feliz infância. Certo é que de carro, ônibus, avião, muitos lugares foram visitados, muitas experiências vividas.

Praias, montanhas, cacheiras, grutas, o destino quase sempre determinado pela oportunidade. E aproveitado ao máximo, dentro das características de cada um. Mesmo alguns programas de índio acabaram por deixar boas lembranças.

Maquiné, Caraça, Serra do Cipó, Iguape, Canoa Quebrada e tantos outros lugares chegando até o Cariré, Ubajara e Piracuruca. Longas viagens de ônibus, rodoviárias deploráveis, hotéis cujas estrelas eram as vistas pelos furos do telhado sem forro. Algumas vezes com a companhia de sobrinhos ou cunhadas.

Ainda hoje, quando a ocasião se apresenta, curtimos viajar juntos. Não importa para onde. Até mesmo a cidade onde vivemos oferece infinitas possibilidades. O importante é a descoberta, a aventura, o prazer.

Acredito que o vírus de viajar foi inoculado na garotada. Cada um a seu jeito curte a paixão. João, com roteiros que vão da Nova Zelândia a Bratislava passando pela Islândia. Maria, descobrindo a alma e desconhecidos lugares de Belzonte, Bath, Paris, Berlim, Sampa ou Fortaleza. Pedro, sempre o mais trilheiro, une o ciclismo com as viagens, palmilhando cada canto do litoral cearense, com a sua MARPEDAL. E, graças à tecnologia de informação e redes sociais, continuamos a viajar juntos.

(Fotos do aplicativo de rejuvenescimento, também conhecido como álbum de família e dos citados no post.)