Fazenda São Joaquim

La pelos 1958 meu pai pediu transferência da Coletoria Federal de Piracuruca/PI, onde nasci, para Senador Pompeu/CE. Na época, eu tinha terminado o curso primário e precisava aguardar a idade exigida para fazer o exame de admissão para o ginásio. De forma geral, os nascidos a partir de 1º de julho, tinham este problema. Papai partiu para Senador para assumir o cargo, providenciar casa e coisas tais, enquanto mamãe e os irmãos ficamos aguardando na Fazenda São Joaquim.

A fazenda possuía diferenciais que geravam respeito e admiração nos que a conheciam. Por decisão dos irmãos após a morte do pai, a propriedade era tocada em condomínio. Todos trabalhando com um objetivo comum, com resultados compartilhados.“Um só coração, um só cofre”, “uma só panela, uma só bolsa”, expressões usadas por visitantes para expressar o que viam. Num ambiente em que a gestão de Sêo Chico, irmão mais velho, não tolhia as manifestações e iniciativas individuais. Do modelo resulta notável infraestrutura – açudes, canais, casa de fábrica, currais, aprisco para ovelhas e um casarão de uns mil metros quadrados de área coberta, onde os primos curtíamos as férias escolares, com a incrível sensação de pertencimento a um lugar mágico e real.

Atividades de lazer e trabalho não faltavam (sempre há muito trabalho a fazer no campo, mas nas férias nós acabávamos por priorizar o lazer, sem fugir das obrigações quando solicitados). Água encanada e luz elétrica, confortos ausentes da maioria das cidades do interior na época, eram ali uma realidade. A água vem do açude por um canal e é bombeada pra caixa por um carneiro hidráulico. A luz elétrica por um gerador movido por um locomóvel, que se desliga, mais ou menos, pelas 8 da noite, que a vida na fazenda, começa às 4, tirando o leite das vacas.

A criatividade, inovação e empreendedorismo, ali praticados desde sempre, muito antes de virar mantra dos gurus de negócio, não impediram que a fazenda ficasse imune ao modelo de modernidade adotado no País. Ao optar por fortalecer o sistema de plantation, implantado no Brasil pelos invasores portugueses, foi decretada a morte do tipo de empreendimento adotado na Fazenda São Joaquim, no país inteiro. Monoculturas de exportação podem gerar divisas, mas não desenvolvimento. Os tios ainda tentaram obter ajuda de técnicos competentes. Mas, análises parciais e recomendações pontuais pouco efeito teriam pra reverter o modelo hegemônico adotado.

As pessoas que construíram este mundo hoje estão encantadas. Ninguém da família mora mais lá. Quando surge ocasião, alguns nos reunimos ali para usufruir do espírito que teima em permanecer no que foi feito com tanta alma. As construções que permanecem são testemunhas do engenho e arte daqueles construtores de sonhos.

O ano que passamos lá foi simplesmente incrível. Banhos, pescarias, caçadas, passeios de bicicleta e cavalo, além da vivência plena da dura realidade do dia a dia rural. Mas, o principal foi conviver com as pessoas, que com suas ideias e seu trabalho, tornaram aquilo tudo real. Ver um engenheiro, que saíra dali para estudar, voltar para aplicar seus conhecimentos em benefício dos seus. Ver um doutor médico tirar o jaleco, pegar um machado, cortar empilhar a lenha da casa como um trabalhador que sempre foi. Saber que tudo fora feito sem favores, financiamentos privilegiados ou arranjos que comprometessem a independência. Aprender a valorizar o trabalho e respeitar o trabalhador. A pensar por conta própria e a ouvir e ponderar o pensamento dos outros.

Valores que a traça e ferrugem não corroem e os ladrões não roubam.

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