Coisas de futebol

Quando moleque, nas peladas de rua, os dois craques tiravam o par ou ímpar pra saber quem começava a escolher, alternadamente, os demais jogadores do time. O pior ia ser o goleiro e o segundo pior o ponta esquerda. Não sei qual a lógica disso. Sempre fui o ponta esquerda, embora sendo destro. Mas tinha a característica de chutar forte e bem colocado e sempre tava fazendo uns golzinhos. Como dizia Dario Peito de Aço, o Dadá Maravilha, ‘não existe gol feio, feio é não fazer gol’. Acabei ganhando o apelido de Pepe, por conta de José Macia, ponta esquerda de chute avassalador, integrante do ataque Dorval-Mengálvio-Coutinho-Pelé-Pepe, do fabuloso Santos F.C. de 1958.

Em 1958 completava meus dez anos e acompanhei pelo rádio a conquista da Copa do Mundo pela seleção brasileira. O som vinha em ondas, às vezes alto e claro, depois apenas um chiado. Uma conquista que fazia jus à admiração que o jogador brasileiro gozava na Europa, desde os tempos de Leônidas, o Diamante Negro, passando por Domingos da Guia, Jair Rosa Pinto, Julinho, etc. Pedro Escartin, um espanhol que escreveu um livro para cada copa, narra o feito em Suécia, Apoteose ao Brasil, lançado no Brasil em 1959. Comprei, encapei, assinei Pepe na primeira página e o tenho comigo até hoje. Me espanta que os comentaristas que abundam nas mesas redondas de futebol o desconheçam. Com certeza não falariam tanta bobagem sem fundamento.

No time que estreou em 1958, contra a Áustria, apenas um preto, Didi. Os dirigentes achavam que os pretos não tinham a capacidade de ganhar uma copa do mundo. Depois do 0x0 contra a Inglaterra e pra enfrentar a URSS, espantalho da copa, falam que uma comissão liderada por Nilton Santos foi ao Feola e cobrou a presença de Pelé, Garrincha, Vavá. Na final entra Djalma Santos, escolhido como melhor lateral direito da competição. Ganhamos o título, Didi foi eleito o melhor jogador e Pelé, a grande revelação. Olha o Jesse Owens aí de novo. Sílvio Almeida trata bem assunto aqui e aqui.

Junho é o mês do aniversário da maioria das conquistas da Copa do Mundo pela seleção brasileira.  29 de junho de 1958, na Suécia; 17 de junho de 1962, no Chile;  21 de junho de 1970, no México (conquista definitiva da Taça Jules Rimet); 30 de junho de 200230 , no Japão, o penta. Fora do mês, apenas a Copa de 1994, a única final com placar de 0x0, decidida nos pênaltis. Tenho certeza que se o técnico tivesse colocado em campo o Ronaldo Fenômeno, na época ainda um atrevido Ronaldinho, o resultado seria outro. Faltou ousadia.

Nas minhas regras pessoais de futebol, empate de 0x0 não daria nenhum ponto aos times. 1×1 e 2×2, renderia 1 ponto e se poderia pensar em dar 2 pontos para empate com placar superior. Em disputa de títulos, 0x0, ou levava a outra partida ou ninguém ficava com o título, esperando a próxima competição. Ia ser um avanço pro futebol. Felizmente, nas outras finais a diferença foi de pelo menos 2 gols.

Mas hoje é 29 de junho, dia de São Pedro, festa no mar. Há 62 anos eu tava batendo uma bolinha com os amigos, comemorando o título que acabava de acompanhar pelo rádio. E deixo isso aqui com vocês.

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