P1MC

André Rebouças, encarregado pelo imperador Pedro II de estudar a situação da seca no nordeste, aí pelos 1877, sabia ser esta um fenômeno climático sazonal da região. E constatou que a miséria dela advinda se tornara problema social após a promulgação da Lei das Terras, em 1850. Sugeriu, então, que se distribuísse terra aos sertanejos, para ajudá-los a suportar o período. Coerente com sua ideia que era necessário acabar com a escravidão e o latifúndio para ter um Brasil desenvolvido e próspero. O Conselho do Império preferiu construir açudes e inaugurar a indústria das secas.

(André Rebouças tem um currículo que impressiona pela competência e consistência. É um ilustre desconhecido para a maioria dos brasileiros. Mesmo os que frequentaram escola.)

A indústria da seca fez alguns milionários, mas a maioria dos sertanejos passou privação e miséria. Apesar da construção de centenas de açudes, faltava água e comida na estiagem. Mas nunca faltou a este povim tinhoso e trabalhador coragem e imaginação pra superar adversidade. Consubstanciada na inventividade de um nordestino, que trabalhou como pedreiro em SP, tangido pela seca e trouxe a técnica para desenvolver uma ideia simples e eficiente: a cisterna de placas, ainda no final do século passado. O nome do fera, Manoel Apolônio, o Nel. Seu achado, uma nova vida no sertão.

Como diz o poeta, ‘um galo sozinho não tece a manhã’. E a novidade foi vista, comentada, compartilhada e melhorada por um montão de gente, dando forma a um programa de convivência com o semiárido. Com o ‘como’ e os ‘por quês’. Era a água, a informação, o conhecimento, a organização e capacitação do povo para construir o seu destino. Tive a alegria de ver as mudanças que o programa promoveu nas pessoas. Natural, pois, que um governo seriamente comprometido com a redução da fome e da miséria colocasse o programa no orçamento do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

A indústria da seca reagiu inventando uma cisterna de plástico que agradou sobremaneira seus asseclas por dispensar a capacitação exigida no programa da cisterna de placas, incômoda fonte de conscientização dos problemas do sertanejo e de sua condição de resolvê-los. De quebra, servia de ícone, ao lado do famigerado carro pipa. Contraditório, que o mesmo governo que assumiu a cisterna de placas engolisse essa aberração. Coisas da política.

“O pobre não é problema, o pobre é solução” já disse (e provou) um presidente do Brasil. O P1MC se soma a vários outros exemplos pra demonstrar essa verdade. Tá na hora de termos consciência disso.

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