
Fala-se que o imperador Calígula indicou seu cavalo Incitatus ao Senado Romano, inaugurando com o gesto a participação de animais na cena política e a nomeação de senadores biônicos, adotada no Brasil pelo ditador Geisel em 1977. Incitatus não assumiu o cargo. Já os biônicos de Geisel sujaram a própria biografia e foram merecidamente esquecidos.



Por outro lado, a partir da adoção do voto direto, consequência da Revolução Americana de 1776, em várias latitudes e longitudes, animais foram eleitos para cargos públicos, embora não se saiba de casos em que tenham assumido e exercido a função. Pelo que sabemos dos animais, entretanto, podemos ter absoluta certeza de que teriam mais decoro e compromisso do que parlamentares do nível de André Fernandes, Nicolas Ferreira, Bia Kicis, Julia Zanata, Eduardo Girao e catrevagem da mesma laia. É bom frisar aqui, que uma rápida volta na internet informa que a maior quantidade e variedade de animais eleitos, seja pro executivo ou pro legislativo se dá nos EUA, talvez pelo seu peculiar sistema eleitoral.



No Brasil, antes mesmo do Código Eleitoral de 1932, que instituiu o voto secreto, o voto feminino e a Justiça Eleitoral, os fortalezenses elegeram o Bode Ioiô como vereador. Não foi empossado, mas nunca deixou de bater ponto na Praça do Ferreira, estando sempre junto ao seu eleitorado, merecendo seu respeito até o fim da vida e o reconhecimento de seu valor post mortem. Foi empalhado e tornou-se peça de museu. (O Ceará não tem vergonha de ser vanguarda). O citado código, porém, teve que esperar o fim do Estado Novo, em 1945, para ser realmente testado e já na eleição presidencial de 1950 afrontou a zelite política/econômica/midiática com a eleição de Getúlio, dose repetida em 1955, com Juscelino. Voltando aos bichos temos um bode eleito em 1955, em Jaboatão, que acabou inspirando um jornalista do Estadão a lançar a candidatura da rinocerante Cacareco à câmara Municipal de São Paulo em 1959. À votação estrondosa obtida pela candidata, uma enxurrada de críticas óbvias repetidas até hoje. Nenhuma análise séria da razão de se eleger até hoje chupetinhas e raspa-canecos. Aí veio a crise da posse de Jango, em 1961, o golpe militar de 1964, o AI-2 de 1965 que acabava com as eleições diretas para o executivo, logo quando ia tirar meu título de eleitor.



Restrito a votar para vereador, deputado estadual e federal, senador, distribuidos em 2 partidos, o do sim e o do sim,senhor, o eleitor logo aprendeu o que fazer pra mostrar sua vontade. Em 1974 impôs categórica derrota à ditadura na eleição para o Senado, a única majoritária direta na época. A ditadura deu o troco, criando os já falados senadores biônicos. E aconteceu uma enxurrada de oportunistas se filiando ao MDB (vocês sabem porque…ou imaginam). O voto apressou o fim do regime militar. E os animais voltaram à cena eleitoral pelas mãos de um jornal de humor, com um macaco, Tião, sendo o terceiro mais votado para a prefeitura do Rio de Janeiro, em 1988, e no meso ano o mosquito foi eleito para a prefeitura de Vila Velha . No Brasil, ao contrário dos EUA, não se elegem pets para cargos públicos. A imprensa hereditária, dita profissional, continua sua guerra contra o instrumento do voto, que depois de 1988 passou a ser universal e quase sempre insubmisso à sua vontade. Mas conseguiu eleger seu candidato em 1989, o primeiro em voto secreto e direto desde 1960. Como o de 1960, também seu candidato, foi um desastre e não terminou o mandato. Com a virada do século e adoção da urna eletrônica, candidatos animais vão direto pra voto nulo e não são mais vistos, embora sejam encontrados nas redes sociais em anos eleitorais. Mas coisa bem pior, como raspa-canecos, chupetinhas, rachadinas, bananinhas são eleitos e avacalham de vez o Congresso Nacional.




Eis que este ano de 2026 traz de volta os animais ao cenário eleitoral. Não um Incitatus, uma Cacareco, um macaco Tião. Mas o OBSCURO PANGARÉ, tradução fiel em português claro do título do hollywoodiano filme, falado em inglês (cenas de viralatismo explícito), com mirabolante financiamento que não coube em nenhuma explicação, ou cabe em muitas, por ser descarada a lavagem de dinheiro (privado, claro, mas pelo jeito, imundo). Nem todo o detergente com bactéria dá jeito. Deu com os burros n’água. Mas os moleques do oBSCURo, acompanhados do neto do ditador que foi desmoralizado pelos terroristas do Riocentro e entregou o governo com a inflação nas nuvens e a dívida externa descontrolada, correram pra pedir penico pro Calígula imperador laranja. E a candidatura colocada na mesa é a de um vira-lata capaz de entregar as riquezas e o futuro do País e seu povo em troca do apoio às maracutaias de uma única e singular famiglia. Dose cavalar de cara de pau e entreguismo. A imprensa faz cara de paisagem. E tenta vender a ideia de uma disputa entre a direita e a esquerda, quando na verdade é a luta da dignidade e da decência contra a esculhambação. E o eleitor que já tinha de correr com 318 deputados e 49 senadores defensores de bandidos tem que nos livrar do sátrapa do laranjão. Que tenha consciência de seu poder e não o entregue de mão beijada para falsos profetas.

P.S. O vereador da comunidade é o Caçote, que exerce seu mandato com competência, zelo, dedicação e compromisso.