Com a deteriorização da BR 222 no princípio do século tive de encontrar alternativa para ir de Fortaleza a Ubajara, sendo a melhor opção na época ir por Canindé-Santa Quitéria-Guaraciaba. E logo de cara me deparei com a estátua inacabada no alto do morro. Pensei logo que era mais uma das obras que a gente encontra abandonadas Brasil afora. Numa próxima viagem enxerguei uma cabeça caída na cidade, aqui em baixo, me deixando intrigado com o acontecido. Fico sabendo que era uma estátua de Santo Antônio, pra aproveitar o fluxo de romeiros de São Francisco, no vizinho Canindé. Coisa de prefeito que não é fiscalizado por ninguém.

A partir de 2010 a estrada entrou na minha rota de trabalho e eu tinha comprado uma câmara digital. Surgira uma vila ao redor da cabeça e fiz algumas fotos no local, publicadas em uma rede social como O Santo sem Cabeça, especulando se tamanha desfeita ao santo casamenteiro teria influenciado os casamentos da região. Enquanto isso, Socorro Acioli usa o acontecido pra criar um belo romance, onde o protagonista, morador da cabeça, escuta as preces e dá providências. Vale ler o livro, A Cabeça do Santo, disponível também no MEC Livros.



Existe hoje de norte a sul uma epidemia de estátuas religiosas de grande porte de gosto duvidoso e finalidade obscura. E com uma irritante e descabida comparação com a pioneira estátua do Cristo Redentor, como se tamanho fosse documento. Até Nossa Senhora Aparecida que construiu toda sua devoção a partir de uma pequena estátua, tem hoje um monumento gigantesco pra ser cultuada. Lembro que quando criança havia um verdadeiro frenesi com a imagem de N.S. de Fátima, havendo inclusive uma estátua peregrina que vinha de Portugal e a santa que veio para o Aprazível, no Ceará, nem coube dentro da capela. Há um mundo de explicações para a explosão das megaestátuas, religiosos, econômicos, políticos, turísticos, mas são bem poucas as peças que me dizem alguma coisa. O fato é que no entorno do santo é criada uma estrutura para os empreendedores atenderem os romeiros, vendendo diferentes produtos – artesanatos, comidas, etc. – também voltados ao catolicismo. (Já devia ter desconfiado que o tal empreendedorismo está na origem da moda)






Mas o nosso santo sem cabeça precede esta moda e pagou o preço do pioneirismo. Largado e dividido – corpo no alto, cabeça no chão – tornou-se atração e foi motivo de gozação, matéria de jornal, documentário, assunto do youtube e o passaporte de Socorro Acioli para uma oficina de escrita com Gabriel Garcia Marques, resultando em seu romance A Cabeça do Santo, que acabou caindo na graça do público. E eis que os novos tempos da Rota do Turismo Religioso trazem um acordo entre prefeitura e governo do estado para a execução de ambicioso complexo religioso com mirante, museu, lojas, restaurante e principalmente uma nova estátua do Santo com a cabeça no lugar. A população se animou com a promessa. Mas começa a ficar com a pulga atrás da orelha que a previsão de conclusão da obra para 12 de maio de 2022 furou e nem prefeitura nem governo estadual garantem uma nova data pois cada um depende de que cada outro cumpra sua parte. De qualquer forma, na festa desse ano a estátua está aguardando a conclusão embora a festa do Santo esteja troando em Barbalha, Campo Maior e aqui na comunidade abrindo a temporada junina.


