Vastas emoções, relatos imperfeitos

Alguns anos atrás, Pedro, cujo chamego por bicicleta vem desde cedo, anunciou uma viagem de Fortaleza a Jericoacoara, no pedal, pela praia. Fiquei encantado e foi minha entrada no mundo do cicloturismo.

A viagem era a concretização do desejo de aventura e liberdade, proporcionado pela atividade, desenvolvido ao longo do tempo, em pedaladas pela cidade e em papos e troca de ideias com o amigo Tiago, companheiro nesta e noutras incursões. Sucesso total, compartilhada pelo Facebook, e repetida algumas vezes com parceiros diversos. Na esteira, outras – de Porto do Mangue (RN) a Caponga (CE), de Redonda a Jeri, incluindo o Litoral Leste. Lamentei profundamente ter parado de pedalar há tanto tempo, sem tomar nenhuma atitude para recuperar o atraso, porém.

Em agosto, Pedro me convida para dirigir o carro de apoio numa viagem que ele e um companheiro fariam de Peroba até o Porto das Dunas. A função: levá-los ao ponto de partida e vir trazendo o carro pela estrada, enquanto seguiam pela praia, encontrando-os em pontos determinados ou atendendo alguma emergência. Aceitei de pronto.

Márcio estreava neste tipo de viagem com muita expectativa e disposição. Da mesma forma, eu. Acertados os detalhes e pontos de encontro, cada time tomou seu caminho.

O primeiro ponto de encontro foi em Ponta Grossa, de coloridas falésias e simpáticas criaturas de poderosa canhota. Na sequência, Quixaba e logo Canoa Quebrada, ponto final do primeiro dia. Registrava as chegadas e partidas dos ciclistas e alguns pontos de interesse quando a câmara e o smartphone estavam de acordo.

O barato do cicloturismo é que você pode traçar o roteiro de acordo com seu modo de vida. Pode mesclar aventura radical com os confortos da vida dita civilizada. No caso desta viagem, puxadas pedaladas na praia, travessias de rios, escaladas de rochas e falésias, estrada carroçal e de asfalto, com paradas em pousadas para o descanso e reposição de energias. Quilometragem menor no primeiro dia, para aclimatar, aumentando nos dias subsequentes.

A viagem seguiu numa sucessão de praias – Pontal do Maceió, Canto Verde, Uruau, Caponga, Barro Preto… – que combinavam cada uma a seu modo o sol, a areia, as ondas, a ocupação para deleite dos viajantes e dos ocupantes do carro de apoio. A planilha foi cumprida à risca e os objetivos plenamente alcançados, como pode ser verificado nas fotos feitas pelos protagonistas, disponibilizadas na internet.
Cicloturismo não é competição, mas superação e realização. Assim, ao final da viagem o sentimento que lhe invade é a felicidade pela experiência vivida, pelo caminho trilhado em busca do que você tem de melhor.

É isso aí.

Guardados

Recordações são uma viagem. Do armário brotam equipamentos, publicações, fotos, slides, cromos e negativos lembranças de tempos e profissões do passado.

Por muitos anos fui fotógrafo profissional. Fotógrafo é aquele enxerido que as pessoas e empresas contratam para produzir uma imagem que faça jus ao que pensam de si mesmos. Nem sempre o retrato corresponde à expectativa, ou exagera na crua exposição da realidade. É tratado com polida deferência e indisfarçada desconfiança.

Neste tempo de culto à imagem (que coincide com o aparecimento do ser humano no Planeta) é profissional indispensável. Mesmo depois das digitais e smartphones que colocaram a fotografia na mão de todos, é figura requisitada. Antes do aparecimento da fotografia, em 1822, esta função era exercida por outros profissionais das artes visuais. Ao longo da história, muitos fotógrafos elevaram o meio (media/mídia) ao status de arte, com sensibilidade, criatividade, rigor e apuro técnico.

No meu caso, um profissional correto, que trabalhava para grandes empresas da construção pesada e civil, indústrias de base e algumas agências de publicidade de Minas Gerais. O ramo menos remunerado, mas que te livra da latomia de mães de noivas e debutantes. Na época, o primeiro grupo de clientes tinha obras e equipamentos espalhados em todo o Brasil, o que me rendeu 10 anos de, no mínimo, um voo por dia para estar onde acontecia o milagre brasileiro. Viajar e conhecer novos lugares sempre foi minha paixão.

Quem hoje clica compulsivamente em seu smartphone em todos os lugares públicos e privados não faz a menor ideia das restrições a que era submetido um fotógrafo naquele tempo. Não podia fotografar militares com copo na mão ou de boca cheia. Prédios públicos, aeroportos, bancos, supermercados e mais um tanto de lugar só com autorização prévia. Quem ousasse arriscar um instantâneo despretensioso, corria o risco de dar com os costados numa delegacia de ordem política e social (DOPS), passar a noite num quartel, a contragosto ou ficar guardado um tempo numa prisão da Polícia Federal. (Não eram opções excludentes, por certo.)

Hidrelétricas, estradas, plataformas, linhas de transmissão, portos, entre outras obras, prometiam construir a infraestrutura de um Brasil Grande, com economia moderna, à altura de seu potencial. As fotos eram encomendadas para transmitir esta visão. No entanto, acabavam captando um pouco das contradições do modelo, Parte importante do meu trabalho acabou ficando nos arquivos das empresas, que entendiam ter adquirido até a alma do fotógrafo pela merreca que pagavam. Pelos 1980, os profissionais da fotografia se uniram e fizeram valer um mínimo de regras, no tocante à remuneração e direitos autorais, relutantemente aceitas pelos contratantes.

Fechado o parêntese e voltando ao armário, não faço a menor ideia do destino deste material. Repassar os filmes para empresas que recuperam a prata é o óbvio, sempre postergado para depois de uma seleção nunca realizada. Enquanto isso, vou azucrinando os leitores.

Pra mode ver

Luís Gonzaga, o Lua, Rei do Baião, viajante contumaz e inveterado, diz em uma de suas canções existirem coisas que “pra mode ver o cristão tem que andar a pé”.

Matou a pau o Mestre Lua. Usufruir cada lugar e momento, empregando os cinco sentidos, de mente e coração abertos é o que torna sua viagem uma experiência única, marcante e inesquecível.

Em sua origem o ser humano era nômade, obrigado a deslocamento constante para obter seu alimento. Só quando domesticou as sementes e os animais, dando início à agricultura, se fixou num canto, resultando nestas cidades onde vive hoje. Mas conserva o verme de sair do seu abrigo para explorar lugares novas, sempre que surge a ocasião.

Por séculos, aventureiros, exploradores, artistas, cientistas deixaram o conforto do seu lar e se lançaram pelo mundo a conhecer novas terras e gentes, deixando relatos que incendiavam a imaginação de seus contemporâneos, granjeando admiração e prestígio.

No século XX, com o incremento dos transportes e comunicações, se consolida a indústria do turismo, que procura suprir esta característica do ser humano. Um negócio respeitável. Nos anos 1960, jovens do mundo inteiro, mochilas nas costa e polegar pedindo carona, botam o pé na estrada, contestando a pasteurização do turismo industrial e buscando novas formas de se relacionar com o mundo, dentro do lema Paz e Amor, descobrindo lugares esotéricos e paradisíacos, como São Tomé das Letras, Arembepe, Canoa Quebrada, hoje arroz de festa das agências de turismo.

Mas o mundo gira e a Lusitana roda. A preocupação com a ecologia, a sustentabilidade; o cuidado com a saúde do corpo e as práticas de exercícios físicos; o gosto da aventura e o amor à natureza fazem surgir neste século um novo tipo de viagem, que contempla à perfeição o dito de Luís Gonzaga. Uma viagem em que o percurso é tão importante quanto o destino, pra mode o cristão ver tudo aquilo que o caminho oferece. Um barato, o cicloturismo.

Foto de Pedro Caram