Guardados

Recordações são uma viagem. Do armário brotam equipamentos, publicações, fotos, slides, cromos e negativos lembranças de tempos e profissões do passado.

Por muitos anos fui fotógrafo profissional. Fotógrafo é aquele enxerido que as pessoas e empresas contratam para produzir uma imagem que faça jus ao que pensam de si mesmos. Nem sempre o retrato corresponde à expectativa, ou exagera na crua exposição da realidade. É tratado com polida deferência e indisfarçada desconfiança.

Neste tempo de culto à imagem (que coincide com o aparecimento do ser humano no Planeta) é profissional indispensável. Mesmo depois das digitais e smartphones que colocaram a fotografia na mão de todos, é figura requisitada. Antes do aparecimento da fotografia, em 1822, esta função era exercida por outros profissionais das artes visuais. Ao longo da história, muitos fotógrafos elevaram o meio (media/mídia) ao status de arte, com sensibilidade, criatividade, rigor e apuro técnico.

No meu caso, um profissional correto, que trabalhava para grandes empresas da construção pesada e civil, indústrias de base e algumas agências de publicidade de Minas Gerais. O ramo menos remunerado, mas que te livra da latomia de mães de noivas e debutantes. Na época, o primeiro grupo de clientes tinha obras e equipamentos espalhados em todo o Brasil, o que me rendeu 10 anos de, no mínimo, um voo por dia para estar onde acontecia o milagre brasileiro. Viajar e conhecer novos lugares sempre foi minha paixão.

Quem hoje clica compulsivamente em seu smartphone em todos os lugares públicos e privados não faz a menor ideia das restrições a que era submetido um fotógrafo naquele tempo. Não podia fotografar militares com copo na mão ou de boca cheia. Prédios públicos, aeroportos, bancos, supermercados e mais um tanto de lugar só com autorização prévia. Quem ousasse arriscar um instantâneo despretensioso, corria o risco de dar com os costados numa delegacia de ordem política e social (DOPS), passar a noite num quartel, a contragosto ou ficar guardado um tempo numa prisão da Polícia Federal. (Não eram opções excludentes, por certo.)

Hidrelétricas, estradas, plataformas, linhas de transmissão, portos, entre outras obras, prometiam construir a infraestrutura de um Brasil Grande, com economia moderna, à altura de seu potencial. As fotos eram encomendadas para transmitir esta visão. No entanto, acabavam captando um pouco das contradições do modelo, Parte importante do meu trabalho acabou ficando nos arquivos das empresas, que entendiam ter adquirido até a alma do fotógrafo pela merreca que pagavam. Pelos 1980, os profissionais da fotografia se uniram e fizeram valer um mínimo de regras, no tocante à remuneração e direitos autorais, relutantemente aceitas pelos contratantes.

Fechado o parêntese e voltando ao armário, não faço a menor ideia do destino deste material. Repassar os filmes para empresas que recuperam a prata é o óbvio, sempre postergado para depois de uma seleção nunca realizada. Enquanto isso, vou azucrinando os leitores.

2 comentários em “Guardados

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