A vida é doce, mas é dura. Ou vice-versa.

Viajar entra no meu vocabulário antes mesmo de eu me entender como gente. E as primeiras lembranças são as viagens para Ubajara, terra natal de minha mãe, destino certo nas férias de meu pai, quando ainda usava cueiros.

E a mais viva recordação destas viagens é o engenho de rapadura. Os tachos fumegando, misturando sua fumaça com a neblina que cobria a serra. A cana triturada no engenho, produzindo a garapa (doce sem precisar de açúcar) e respingando no couro da gente. Os bolões de rapadura quente comidos na beira da gamela. (Brinco que fui criado numa gamela e anos mais tarde uma amiga registrou uma imagem que me levou a este tempo e que divido com vocês).

Findo o inverno, em quase toda propriedade rural da região funcionava um engenho, movido a tração animal, visitado por um enxame de pessoas atrás de beber uma cuia de garapa, levar um bolão de rapadura quente ou uma marmita de mel, sob o olhar resignado do proprietário. Garapa, puxa, batida de gamela, rapadura quente, delícia para todos, prejuízo pro dono. No engenho da família, a força motriz era um locomóvel a vapor, que abastecia duas fornalhas, elevando a produtividade, além de tocar uma serraria e outros equipamentos.

A rapadura, açúcar e doce de pobre, era produzida em milhares de propriedades agrícolas espalhadas Brasil a fora, com tecnologia própria em cada região. No Ceará, os principais polos eram a Ibiapaba, o Cariri e algumas regiões do Litoral. Produção artesanal, com ligeiras variações de textura e sabor, conforme a origem. Mas, de ampla aceitação em todas as classes. E obrigatória no soim do trabalhador rural.

Mudanças nos hábitos alimentares trazidas pelo sistema agroindustrial, alterações nas relações de trabalho no campo, êxodo rural, ruídos na distribuição e comercialização são alguns dos fatores que provocaram o declínio da agroindústria artesanal de rapadura. A maioria dos engenhos de rapadura fechou e o mar de cana sumiu. A troca do boi por motores a diesel e depois elétricos não resolveu o gargalo da modernização tecnológica e mercadológica que emperrava a produção.

Um grupo de produtores de rapadura de Ubajara ainda se propôs a enfrentar o desafio de modernizar o setor, no final dos anos 1990. Criaram uma Associação de Produtores de Rapadura (ASPORRA, na sugestão deles, APRODOCE, no nome oficial), visitaram regiões produtoras, buscaram assessoria no SEBRAE, mas foram brecados por um desses economistas cabeça-de-planilha que abundam por aí. Afinal, eram pequenos produtores, apesar de seus negócios irem melhor que o de muitos grandes.

Ficam as lembranças.

(fotos de Regina Cunha, João Caram e do autor)

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