Peixe que ronca

Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste diz Olavo Bilac no poema Pátria, em 1904, presente na infância de várias gerações de crianças brasileiras. Uma visão idílica e ufanista da natureza e da sociedade brasileira, olvidando o fato que os canaviais ocupavam áreas de antigas matas, o pau-brasil que deu o nome ao País era raridade e não fazia ainda 20 anos que a escravidão fora abolida, lançando os negros na rua sem um palmo de terra e sem nenhum tico da riqueza por eles produzida em 380 anos.

Em tempos de pandemia, o celebrado autor do bestseller Sapiens, Yuval Noah Harari, afirma: “ser patriota é manter um bom sistema de saúde, pagar impostos…”, o que exclui da categoria os dirigentes e a classe dominante do Brasil atual, mais identificados com o que falava Samuel Johnson, brilhantemente atualizado por Millôr Fernandes para a situação brasileira: “o patriotismo é o último refúgio do canalha. No Brasil, sempre o primeiro” . Mas aonde mesmo esse papo vai nos levar?

Vai levar a Piracuruca, peixe que ronca no idioma indígena, cidade declarada como patrimônio cultural brasileiro pelo Ministério da Cultura, e onde vim ao mundo no primeiro dia da novena da padroeira, Nossa Senhora do Carmo. Coincidências e significados da data são assunto pra outra conversa. Hoje, a memória da cidade onde nasci e passei meus primeiros 10 anos de vida. Doces lembranças e mágicas fantasias que moram até hoje aqui dentro.

Lembrança da Esplanada, larga rua de terra que ligava a estação ao centro, palco de memoráveis fogueiras no aniversário de sêo Batista. Das pontes do Rio Piracuruca, de ferro, na linha do trem, de madeira, no centro, de concreto, na distante ponte do Urubu, hoje dentro da cidade. Das piruetas de bicicleta. Do cinema na praça da igreja que despertou a paixão pela sétima arte. Patronato Irmãos Dantas e os primeiros passos escolares. De brincar de caubói nas areias do rio. Vila Verde e a conquista da primeira Copa do Mundo, nas ondas curtas do rádio, que iam e voltavam. De andar pelo mercado, segurando a mão de meu pai. Irmãos e amigos sempre juntos na perambulação. E tudo isso recontado aos filhos em histórias que inventava para fazê-los dormir.

O melhor lugar pra viver é a infância, certo. Explica minha relação com Piracuruca, mais de 60 anos depois de ter saído de lá e a sensação experimentada quando passo por lá ultimamente. Espero que os conterraneos saibam fazer o futuro sem destruir o passado e que na próxima visita, já agendada desde sempre, possa fundir minhas memórias com o casario conservado, evocando tudo de bom que lá vivi.

P.S. Piracuruca é também a sede do Parque Nacional de Sete Cidades.

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