1 centavo de pensar

No primeiro dia útil de 2021, a newsletter do Poder360 faz uma ode ao capitalismo de compadrio vigente na terrinha, alcunhando-o ali de liberalismo, numa desfeita aos pensadores dessa corrente econômica, como Friedman e Hayek, citados nominalmente, sem direito de defesa.

Me veio logo a lembrança de episódios vividos na Alemanha, em 2010. Os comércios locais sempre dão 1 centavo de troco ao consumidor, caso a compra seja de €1,99, €7,49, €99,99 ou valor assemelhado. Ao lado do caixa, uma vasilha para a pessoa descartar o troco caso deseje. Um aviso que será doado para instituições de caridade, mas os brasileiros, céticos maldosos, insinuam que vai retroalimentar o caixa para o troco.

Sem entrar nessa discussão, o importante é notar que existem outros valores além da grana. No caso, respeito e honestidade. Se cobro €7,49 pela mercadoria, não posso obrigar o consumidor pagar €7,50. Direto e reto. Numa economia capitalista de concorrência acirrada não dá pra assaltar o consumidor na boca do caixa. Quem paga, manda e ele tem consciência disso. Procure-se outro meio de fazer o esbulho.

Já no capitalismo de compadrio vigente no Brasil, o consumidor aceita alegremente ser passado pra trás. Inebriado com seu poder de compra, faz o papel de trouxa numa boa. Nunca, as incontáveis lojas de R$1,99, que proliferaram em todo lugar na esteira do plano Real, pensaram em honrar sua proposta. Na esteira, até caixa do BB se deu ao desplante de recusar pagamento de DARF de R$74,08 com moedas de R$0,01, numa descarada afronta à lei.

Se como consumidor é uma lástima, como cidadão é uma tragédia. Sem consciência de classe ou de direitos, é capaz de vestir uma camisa amarela e sair por aí a defender, como um pato, que rico não pague imposto, pois já os pagou, inclusos nos preços da mercadoria. Enquanto os ricos passeiam em lanchas, iates, helicópteros e jatinhos, isentos de IPVA.

Ciente disso, a imprensa escrita, falada, televisionada, cuja ética é o faturamento, como advertia o letreiro posto no elevador de uma empresa do ramo nos 1970, deita e rola ao construir uma narrativa falaciosa para evitar o pensar sobre a tragédia que estamos vivendo.

Pensar não custa 1 centavo. Mas vale o exercício.

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